ESPAÇO ABERTO: Sínodo na Igreja Católica
Não existe mais espaço para clericalismos anacrônicos nem visões unidirecionais!
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de setembro de 2021
Não existe mais espaço para clericalismos anacrônicos nem visões unidirecionais!
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS 

A Igreja Católica passará nos próximos dois anos por um lindo e profundo momento de escuta de Deus e de escuta dos homens, o particularmente que se reveste de extrema importância, tendo em conta que não escaparão deste processo, os afastados e até os não crentes. “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão” é o tema da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos que terá lugar em outubro de 2023.
Trata-se de um processo sinodal que tem início oficial em Roma nos dias 9 e 10 de outubro e no dia 17 do mesmo mês a ativação em cada uma das igrejas espalhadas pelo mundo. Incluindo, é óbvio, a Arquidiocese de Londrina. Um procedimento com o odor de Francisco, o papa.
Como foi sobejamente lembrado pelo Vaticano, o sucesso deste Sínodo dependerá da eficácia da consulta. Compete aos bispos sabê-lo organizar bem, dando espaço para ouvir a todos. É um caminho que não terá retorno! Sei que muitos leitores são cépticos sobre as mudanças na Igreja Católica, mas não podemos ser injustos.
Reconhecemos que não tem mudado com a rapidez desejada por alguns, porém, tem dado passos firmes desde o Vaticano II e, especialmente, com o atual papa. Como lembrou o cardeal Mario Grech, secretário geral do Sínodo, a Igreja não são só os que enchem os primeiros lugares.
A Igreja como mãe, inclui mesmo aqueles que não praticam e os que deixaram a Instituição. É um convite a todos para estarem juntos e escutar o que o Espírito Santo está dizendo. Por suposto, o Espírito Santo não faz distinções.
O alerta para as dioceses é aberto e taxativo: o povo de Deus é santo e ungido e por isso o torna infalível (EG 119). O referido conceito de “povo de Deus”, está longe de se deixar aprisionar num pequeno grupo seleto de leigos próximos ao bispo, em não poucos casos clericalizados, numa zona de conforto há décadas. Podemos dizer que sinodalidade é, em primeiro lugar, um estilo, um modo de ser Igreja! Uma performance, que pelo método adotado, se torna totalmente imprevisível; de fato, abrir-se ao sopro do Espírito pode dar uma sensação de vertigem, mas é sempre a recuperação da verdade sobre si mesma!
Não existe mais espaço para clericalismos anacrônicos nem visões unidirecionais! O protagonista da ação da Igreja é todo o povo de Deus. Essa escuta recíproca, como tem sido sobejamente lembrado desde o anúncio do Sínodo, significa que pastores escutam os fiéis, fiéis escutam os pastores. É uma Igreja que conjuntamente escuta a voz de Deus; e uma excelente novidade: escutar até a voz dos não crentes! Uma escuta bem ampla, que ouça o grito do mundo para aí escutar a voz de Deus e que escute a voz de Deus para aí escutar os desafios da história.
A Igreja sinodal apela também para rasgos explícitos de humildade, fonte de fidelidade ao Evangelho. O sínodo não visa produzir nenhum documento oficial; quer em última análise,instituir na Igreja, uma nova dinâmica, que conduza a todos a uma conversão pastoral. Ter a última palavra sobre tudo, ser uma espécie de “poder moderador” ou apontar os erros da humanidade, são atitudes que estão definitivamente aposentadas e caminha-se para acabar com a autorreferencialidade da Igreja. Diante da complexa saga humana, não são poucos os casos em que o silêncio também é uma sábia e evangélica atitude.
Rever as instâncias das decisões, na forma e na sua constituição, abrindo espaço para parcelas aparentemente minoritárias, que provoquem um sadio e necessário debate de ideias é imprescindível. Escutarmos grupos "out" do nosso cotidiano eclesial e clérigos idosos, é de bom tom na elaboração do documento a ser enviado à CNBB.
Manuel Joaquim R. dos Santos é padre na Arquidiocese de Londrina


