Quando a religião namora o poder, o resultado não pode ser outro, se não a negação de si mesma! No passado, tanto os ditos católicos, quanto depois os protestantes (que na verdade já nasceram envoltos em conflitos políticos), foram exímios mestres na arte de se empoderarem politicamente. A Igreja à qual pertenço selou uma aliança nefasta com as monarquias durante séculos, praticamente após se tornar em “religião oficial do império romano” no século IV. No Oriente Médio, os islâmicos, uns com mais radicalidade e outros com moderação, são incapazes de aceitar o Estado Laico, conquista do mundo Ocidental. Na Ásia, em países como Índia, nomeadamente, o peso da religião nas escolhas políticas é, até hoje, muito expressivo.

A religião, já o disse num outro artigo, possui um ethos bem diferente da política. Enquanto esta usa os recursos disponíveis (legais ou não) para alcançar e se viabilizar no poder, a primeira trilha um caminho de serviço ao ser humano, tanto mais eficaz quanto mais distante dos salões governamentais. No que a nós cristãos nos diz respeito, o modus operandi de Jesus não deixa dúvidas quanto ao distanciamento de todo e qualquer poder (Mc 10,35-45). O poder em si corrói a espinal medula do ser religioso e transforma a religião em nada mais que um instrumento perigoso de manipulação. Os sacerdotes do Antigo Testamento eram, em geral, funcionários do templo, que em última análise se traduzia por lacaios do poder político! Os profetas, isentos dessa promiscuidade, sempre os denunciavam (Am 7,10-11).

O afastamento do poder político é um direito e um dever da religião. Se é verdade que não fica incólume à sua proximidade, torna-se essencial, portanto, para a sua missão, a isenção total dos processos mundanos, repletos de armadilhas e caprichos. A neutralidade, porém, não é sinônimo de omissão, uma vez que a liberdade alcançada se reverte na obrigação de denunciar tudo que atenta contra a dignidade do ser humano. A religião é livre para operar dentro do seu principal escopo: a defesa intransigente dos mais fracos, da vida humana enquanto tal (do nascimento à morte) e nomeadamente de apontar atitudes menos republicanas ou até criminosas dos detentores do poder. Uma religião coligada com projetos “temporais” a impedirá de ser fiel às premissas da sua origem.

Nós herdamos dos EUA o melhor e o pior! No momento, tanto lá quanto cá, algumas religiões decidiram “ser poder”. Isso é verificável nas câmaras, nas prefeituras, nas assembleias e no Congresso. E até na presidência! Há uma ânsia de poder no submundo confesso de alguns líderes religiosos! Sem pudor nenhum! Instalou-se no inconsciente de muita gente a premissa (errônea) de que o poder civil facilitaria o crescimento das denominações e aceitação das suas pautas. A Igreja Católica, repito-o, já trilhou esse caminho, do qual hoje muito se arrepende! Por aqui chegavam as naus portuguesas sob a cruz e a espada; unidas! Muitos religiosos conhecidos cometeram a imprudência de atravessar o rio Rubicão e viram diluídas num niilismo exasperante as suas façanhas!

A secularização (diferente do secularismo) é uma conquista irrenunciável e irreversível. “Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). Contudo, muitos, forçando a lógica de meu escrito, poderão desejar remeter as religiões “à sacristia”! Atribuir-lhes um fórum íntimo que as torne reféns de ritos e celebrações incompreensíveis sob a égide da fé. Ledo engano! As religiões ocupam, por natureza, uma linha de fronteira. Ao apontar para o infinito, o absoluto, elas não se isentam do odor terrestre inerente ao ser humano que desejam “salvar”. Por outras palavras, a verdadeira religião está mais para o “chão da fábrica” do que para os templos! Ao não aprisionar o seu Deus entre quatro paredes, também não sufocam os seus ideais, submetendo-os à lógica e à dinâmica do poder mundano.

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina

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