Em editorial sobre a ditadura militar, a Folha aponta que “é insensato classificar qualquer ditadura como ´branda`, para quem perde entes queridos o peso da morte sempre terá a extensão máxima da dor”.


Criei a expressão “ditadura branda” na Bienal do Livro de Brasília em 2014, enojado de ver lá toda uma dispendiosa estrutura tematizando o cinquentenário de 1964. O clima geral era mais circense que livresco, com intensa manipulação de fatos históricos (singelo exemplo: o jornal Pasquim teria sido fechado pela ditadura, quando na verdade fechou depois dela, devido à própria incompetência administrativa, conforme seu último editor, e esvaziado editorialmente pelo fim da ditadura que era sua razão de ser).


O termo “branda” se justifica numa visão histórica, que só pode ser objetiva - em vez de “narrativa” - se baseada em números. Subjetivamente, claro que foi absolutamente ruim para quem foi morto, preso, exilado, perseguido, torturado ou censurado. Mas, objetivamente, por exemplo apenas quanto às mortes ou assassinatos, foram dezenas ou centenas de vezes menos que nas outras ditaduras latino-americanas.


Se foram 300 ou 500 esses mortos, objetivamente pouco importa para classificar nossa ditadura como branda - pois, mesmo que fossem mil, seriam 30 vezes menos que na Argentina, ou 120 vezes menos levando em conta que temos quatro vezes mais população. Enquanto aqui enterraram anonimamente poucos militantes da luta armada, lá aviões militares jogaram muitos no mar, e, paradoxalmente, centenas de bebês de “subversivas” foram adotados clandestinamente, depois de mortas suas mães por militarem em organizações clandestinas...


Sem avaliação objetiva, a ditadura pode ser santificada pela direita como foi demonizada pela esquerda - até para heroicização dos militantes esquerdistas, para serem vistos e se verem como heróis, tanto mais quanto pior for pintada a ditadura. Ao mesmo tempo, a nova direita quer ver a ditadura como revolução popular, legitimada pelas Marchas com Deus Pelas Diretas, mas é preciso também objetivamente lembrar que, apenas uma década depois de 64, em 1974, o povo começou a amplamente rejeitar o regime militar nas urnas.


Entretanto, essa rejeição só foi possível porque a própria ditadura – completamente ao contrário das ditaduras de esquerda e direita no mundo - permitia eleições e um partido de oposição, o MDB, que a engoliria nas urnas.


Além disso, o golpe militar que originou a ditadura só se deu diante de um regime civil que estrebuchava, com a presidência da República vaga e um crescente desconcerto institucional, em meio a intensas mobilizações de esquerda visando uma futura ditadura “do proletariado”, conforme todos os partidos clandestinos de oposição criados antes ou depois do início da ditadura militar.


As ditaduras latino-americanas foram filhas da Guerra Fria entre socialismo autoritário e capitalismo liberal, de cujo fim é símbolo a queda do Muro de Berlim. Para quem não tem viseira ideológica, hoje está claro que a socialização só pode vicejar com liberdade, através de leis incorporadas aos regimes democráticos, deixando assim de ser socialismo - como o capitalismo só pode prosperar com responsabilidade social e ambiental, deixando assim de ser liberal.


Essa compreensão histórica, baseada em fatos, mostra que o Brasil foi capaz de ultrapassar a Guerra Fria com mínimo de danos em comparação com outros países. Para os democratas, interessa assim compreender a ditadura, em vez de desculpar e consagrar, como quer a direita, ou demonizar conforme a esquerda. Isso é fundamental para as novas gerações não se iludirem nem com direita nem com esquerda, visando um Brasil que avance democraticamente, com mais transparência estatal e vigilância social.
DOMINGOS PELLEGRINI, escritor (Londrina)



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