O acirramento de divergências políticas na Igreja Católica do Brasil é materializado nos ataques contra a realização da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021. Os acontecimentos do momento representam uma ruptura no catolicismo, por causa da visão de bispos, padres e leigos que resistem à atuação da instituição religiosa, na adesão aos Direitos Humanos, base fundamental da dignidade de todo homem e de toda mulher, principalmente, de grupos marginalizados, como a população negra, os indígenas, as mulheres, a comunidade LGBTQI+.

O atual cenário de tensão na Igreja Católica é promovido por grupos resistentes às mudanças estruturais da Igreja, propostas pelo Concílio Vaticano II, de um catolicismo aberto às realidades do mundo moderno, no que se refere aos avanços da ciência e da tecnologia, das configurações dos processos políticos e culturais, principalmente, de uma vivência cristã atenta às demandas sociais dos mais empobrecidos.

A tensão no catolicismo brasileiro é um problema histórico, visto que a Igreja está imersa na realidade social que a condiciona, com os conflitos sócio-políticos que a atravessam estruturalmente e provocam divisões de interesses de classes, dentro da própria instituição.

O apoio dos católicos conservadores ao Golpe Militar de 1964, ano de fundação da Campanha da Fraternidade, pode ajudar a compreender a manutenção de projetos políticos de opressão e exclusão, principalmente, a resistência à atuação de uma parcela da Igreja comprometida com as minorias sociais.

Depois que as classes dominantes, representadas pela burguesia e pelas camadas médias, assumiram o poder por meio de um golpe de Estado, os militares consolidaram um regime político ditatorial que reprimiu violentamente os movimentos trabalhistas e os grupos de oposição.

Nesse período, no qual o país estava submetido ao terror ditatorial, uma esquerda católica, representada pela juventude, orientada politicamente pelos religiosos progressistas, se juntara à esquerda tanto universitária quanto operária, demonstrando uma participação mais profunda de católicos, nos movimentos libertários. O envolvimento político dos jovens inclinou-se cada vez mais para a pobreza e a desigualdade social, para a luta dos trabalhadores por direitos e enfrentamento contra o autoritarismo do poder militar.

A ruptura ideológica, atualmente, no catolicismo brasileiro, provocada por grupos conservadores, é continuidade dos mesmos conflitos de interesses apontados na implementação da Ditadura Militar. O discurso ideológico que apoiou o Golpe Militar de 1964, com a justificativa de a Igreja sofrer a ameaça do “fantasma do comunismo”, é recorrente nos dias atuais, e sustentado com mais vigor político e religioso do que no período ditatorial. Essa mentalidade ressurge nos momentos de intervenção social da Igreja contra propostas políticas que possibilitam o extermínio de direitos.

De fato, para os grupos conservadores, quando a Igreja fala em distribuição justa de bens econômicos, materiais, financeiros e também da garantia de direitos sociais, conquistados a duras penas, ela é classificada, como comunista, esquerdista, petista, marxista, dentre outros, por esses cristãos.

Com quase trezentos mil óbitos confirmados pela Covid-19 e milhões de pessoas infectadas pelo vírus, num Brasil que se tornou o epicentro da pandemia, esses religiosos, em nome de Deus, preferiram fortalecer uma política negacionista da pandemia, minimizando seus efeitos, forçando a saída do isolamento social, promovendo aglomerações, recusando o uso da máscara e de outros cuidados básicos, e espalhando mentiras contra a vacina, meio fundamental para a proteção da vida.

Os ataques à Campanha da Fraternidade Ecumênica enfraquecem e descontroem toda luta contra a injustiça e opressão estruturais sofridas pelas minorias sociais, negando a violência simbólica, material e religiosa contra elas.

José Cristiano Bento dos Santos - Pároco da Paróquia Santo Antônio, no jardim Cafezal, Londrina

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