Ouço e vejo o que todos vêm e ouvem. O Brasil não deslancha, não ganha vigor na subida e não entra em voo de cruzeiro. O Brasil decepciona-se com ele mesmo! Como todos que leem este artigo, vivo intrigado e busco as causas para este fato. Houve a esperada mudança de governo, renovaram-se as esperanças e conta-se ainda aqui no Brasil com a coincidência de tudo isso com o início de novo ano civil. Tinha tudo para avançar. Mas não foi isso que aconteceu. Crescimento econômico pífio, dívida interna aumentando e o desemprego atingindo índices alarmantes, enquanto os países do G20 se aproximam de 3.5 a 4%.

Mas os leitores da Folha sabem muito bem que não existe nenhuma magia em fazer acontecer o que a maioria dos brasileiros deseja. Nada cai do céu, como menciona a sabedoria popular. Denuncio aqui uma patologia local, que se caracteriza basicamente pela superstição, de que gente nova no governo e mudança de ano (após carnaval, claro), são os ingredientes essenciais para coisas boas acontecerem aos brasileiros!

Desde novembro os noticiários não falam outra coisa; a cada boa noite do âncora televisivo renovam-se as esperanças de que o dia seguinte trará enfim uma subida acentuada da bolsa uma queda do dólar e os números do desemprego fornecidos pelo IBGE recuarão. Está na hora de acordarmos. Cidadãos adultos não podem viver nesta pueril expectativa.

É verdade que uma reforma da Previdência será a grande alavanca que o Brasil precisa para equilibrar as finanças e crescer substancialmente? Como o governo está colocando aí todas as fichas e muitos entendidos dizem que ela é de fundamental importância, não seria de mau tom que os brasileiros em geral começassem a ler e a estudar o assunto. Afinal, todos serão afetados (positiva ou negativamente) pela dita reforma.

Mas o que vejo, infelizmente, passa ao largo do que seria lógico. Famílias que brigam em almoços de domingo e agressões nas mídias sociais entre quem defende e é contrário à atual proposta, apenas por ter sido este ou aquele governo a trazê-la para discussão. Uma superficialidade alarmante para com um tema de crucial importância. Aliás, não é somente a miopia dos brasileiros que conspira contra o país. Da parte do governo, até ao presente momento, temos assistido a uma parafernália de disse que não disse, roubando-lhe a credibilidade, como mostram as últimas sondagens de opinião. Também ele conspira contra si mesmo.


Um avião que tem na decolagem uma turbina em modo reverso está condenado à queda. Ele precisa de potência máxima para subir. O país não suporta atitudes conflitantes de quem é responsável pelo seu avanço. Sejam meros cidadãos, sejam os integrantes dos três poderes. Uma conspiração contra o país é, em minha opinião, privilegiar discordâncias ideológicas em detrimento do que realmente interessa: reformas que coloquem o Estado a serviço do desenvolvimento e da redução da desigualdade social, sem a qual não vamos a lado nenhum.

Se a Previdência Social deve ser revista e reformada, que se faça um sério debate na sociedade, escutando todos os lados e que os congressistas sejam o eco de seus eleitores. Que logo venha a reforma tributária envolvendo um processo semelhante. Que não se seja contra por ser contra, e nem a favor porque é este ou aquele que as propõe! Necessitamos sair desta mediocridade para enxergarmos que todos devemos ser protagonistas, muito além de um mero voto depositado na urna de quatro em quatro anos.

Tenho a convicção de que a conspiração contra o nosso potencial sucesso como país está na incapacidade, já aqui denunciada, de nos reconciliarmos e nos unirmos em torno de questões de relevância nacional. Infelizmente, por enquanto, ficamos nos digladiando lançando mão do que de mais perverso temos hoje em dia: as fake news!

PADRE MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS, Arquidiocese de Londrina


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