ESPAÇO ABERTO| Na companhia de estranhos...


João dos Santos Gomes Filho
João dos Santos Gomes Filho

Tenho dito nesta Folha que a morte "meio que" se banalizou entre nós e isso devemos, dentre outros motivos, a tendência imbecilizante de se relativizar a nocividade do vírus em plena pandemia...


Esse novo (a)normal devemos muito aos terraplanistas, uma "gente que vegeta só para si" e cuja essência negacionista desanuvia os protocolos (máscara + isolamento social + cuidados com a higiene) estabelecidos desde a gripe espanhola.


O que ontem foi protocolo arraigado ao senso comum hoje não é senão ideologia de desapego humanista – também conhecida como ausência de empatia da turma da Faria Lima...


É neste contexto que a escuridão (velha parceira de inquietações) volta a incomodar, espraiando um seu "sentimento ilhado" que desacredita a própria morte...


Assim, ao não olhar de volta após ser estimado, o negacionista de rede social só faz espraiar o ódio que não deixa colar na meada da vida o fio da história...


O pensamento sempre esteve na linha de frente da evolução da humanidade (cogito, ergo sum). Com a normalização da morte, ainda que ditada pela pandemia, está posto um desafio à inteligência...


O seguidor de mitos que aglomera clamando por "intervenção militar" ao som de Geraldo Vandré (caminhando e cantando) não pode sequer ser qualificado. Isso para calar acerca de sua ignorância da música de Vandré...


Esse "lambe botas" mitiga ideias progressistas em meio a tormenta pandêmica, deprimindo e apeando o secular ideário de empatia. Viver parece mais com não desistir do que com não morrer...


Dentre as mudanças ditadas pelo novo modelo de convívio algumas parecem ter vindo para ficar, na medida em que as variantes ganharam as esquinas e se precipitam em direção a encontros e suspiros...


A companhia de estranhos já não se mostra aceitável, seja doce a encruzilhada ou pesado o asfalto – o que sou é passado...


A velocidade das coisas ultrapassou o tempo de sentir, questionando os signos do existir. Plural não somos nós; são vozes em sintonia com ferramentas da rede...


Tik tok para quem desafia as muitas conexões em um mundo diverso onde você é seu próprio multiverso e o caminho dos acontecidos esvai enquanto prenúncio de obras mal-acabadas.


Signos não são, necessariamente, significados. Mergulhos rasos estão na ordem das coisas e o dia já não pertence aos que vem com a noite; o dia é prenúncio e epitáfio da postagem – a rede cancela a vida ao eleger influenciadores...


O graúdo digital é o cara e as influenciadoras as novas meninas superpoderosas. O tempo é de não se discutir ideias e sim tendências...


Vivemos a estação de marcar posição. Razão e sensibilidade já não são consenso e sim a fantasia que termina em um ‘easter egg’. Postar se mostra maior que estar – posto, logo estou?


‘Colar’ no rebanho dá uma falsa sensação de importância e a mentira segue alimentando a rede, resignificando o caminho de Machu Picchu com postagens, comentários, ‘likes’...


Ninguém se entusiasma mais com viagens, suposto que são os vídeos e as fotos da estrada que animam. A paisagem morreu. Deus salve as postagens que ilustram a paisagem...


A representação das cousas supera as próprias. De concreto a vida só reconhece o status. Homem e mulher modernos não são senão as respectivas aceitações em um mundo conectado...


Estão rolando os penedos? Não; o limo venceu pela ausência de curiosidade enquanto as estrelas deixaram de nos espelhar.


O caminho apostolar de Tiago, em seu campo de estrelas, está na rede e ilustra as nuances de cada passo então dado – ainda que seu "link" oferte uma medida de consequência, nada falando da experiência.


Missa on line. Levaria uma vida debatendo sua lógica não gregoriana, composta de elegias divisórias da ‘comunhão dos aflitos’...


Há, aí fora, um status que não desafia os indecisos. Hoje as cousas são on ou out. Simon seria on, Garfunkel out e ambos já não buscariam uma paga justa, suposto que a procura por emprego nos dias de hoje não vai além de um ‘venha aqui’ das prostitutas que perfilam as avenidas...


Tampouco flertariam com a felicidade, na medida em que os momentos se multiplicam em solidão e isso vale algum conforto em beijos de aluguel – restariam os "sons da cidade peneirados pelas árvores, caindo como poeira nos ombros de velhos amigos" out...


Enquanto isso aves migratórias saudariam as lembranças que a memória guardasse, criando ilusão nas hipóteses do amanhã...


O amanhã não morre. Quem falece é a esperança de um resgate mínimo da empatia e de tantas objurgações que nos fizessem mais felizes que relevantes...


Buscar reconhecimento social faz do homem um tolo. A busca do conhecimento – contrário senso – afaga nossa condição e, talvez, pavimente alguns caminhos.


Foi por conhecimento adquirido que o homem percebeu que a terra não é plana e que a empatia sustenta nossa única hipótese de felicidade...


Foi do jeito que foi porque "trilhei o caminho difícil da linha que nunca termina" – distraídos venceremos...

João dos Santos Gomes Filho, advogado

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