A cultura de um povo tem a ver com os seus valores, aquilo que se acredita e procura fortalecer através de seus hábitos e costumes. A construção de uma sociedade extremamente desigual como a brasileira, não é resultado do acaso, mas a escolha deliberada de grupos que sempre entenderam as desigualdades como um valor, a garantia da hegemonia de alguns sobre a massa, uma forma de recompensa para os "melhores". Essa realidade fica evidente quando se atesta que a diferença de renda entre os 10% mais ricos para os 10% mais pobres é da ordem de 50 vezes – o que faz do Brasil um dos doze países mais desiguais do mundo.
É verdade que a realidade de cada país é única e que é reducionismo querer comparar ou copiar experiências alheias sem se ater às particularidades históricas e culturais de cada nação ou região. Por outro lado, não se pode negar o que de melhor o mundo conseguiu produzir em termos de sociabilidade e que pode servir de reflexão e inspiração para muitas das nossas escolhas econômicas e sociais.
Os países escandinavos - Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia - notabilizam-se pelos níveis de qualidade de vida de suas populações. Invariavelmente, ocupam as primeiras colocações nos índices de bem-estar sociais, como o IDH (índice de desenvolvimento humano) e índice de Gini (que mede o nível de concentração de renda). Uma das características mais marcantes desses países é entender a equidade social e econômica como um dos seus principais valores culturais. São modelos de economia mista, em que o livre mercado convive com forte participação do Estado, além de contarem com uma sociedade civil engajada e envolvida com as questões de interesse público.
A cultura escandinava entende que, embora haja diferença de desempenho e condição entre pessoas e profissões, isso não pode justificar grandes assimetrias nos rendimentos. Para se ter uma ideia do grau de equidade vivido e valorizado por essas nações, de acordo com a Agência Central de Estatísticas da Suécia (Statistiska centralbyra), o salário de um lixeiro no país é de aproximadamente 27 mil coroas suecas, um professor universitário ganha próximo a 35 mil, enquanto um médico recebe 45 mil por mês. O salário médio no país é de 27,3 mil coroas (aproximadamente R$ 9,6 mil) e somente 10% da população tem ganhos superiores a 43,3 mil coroas suecas mensais.
A eleição da equidade como valor cultural, além de assegurar a dignidade humana - um fim em si mesmo - garante maior vigor econômico, pois quanto mais robusta for a classe média maior o potencial da economia. A valorização do fator trabalho funciona como estabilizador da renda nacional, evitando a flutuação das atividades econômicas e o habitual efeito montanha russa do capitalismo desregulado. A boa remuneração de funções geralmente menos prestigiadas e rejeitadas pelos que possuem maior escolaridade, justifica-se pela sua importância social, pelo maior esforço físico e grau de insalubridade, o que resulta num pacto em favor do bem comum.
Os frutos colhidos por países que se notabilizam pela igualdade entre seus habitantes é que não precisam erguer altos muros para proteger suas casas, muito menos viverem enclausurados em condomínios fechados ou terem que contar com policiamento intensivo, pois ninguém se sente ameaçado e com medo do outro. Como resultado, a Suécia em 2014 fechou quatro presídios por falta de detentos. Mas a realidade brasileira teima em seguir na contramão, preferimos conviver com o individualismo exacerbado, movidos pelo autointeresse num patológico culto à superioridade e ao exibicionismo, que se traduz na máxima: "Eu tenho o que os outros queriam ter, logo sou superior".

LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é economista e doutor em Ciências Sociais em Londrina

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