ESPAÇO ABERTO: Entre o velho e o novo, existo eu!
Ei-lo à porta, esse novo ano que já chega ansiosamente desejado e festejado como ano novo!
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de dezembro de 2023
Ei-lo à porta, esse novo ano que já chega ansiosamente desejado e festejado como ano novo!
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos
Entre idas e vindas, términos imperfeitos e novidades já manjadas, eis-nos no limiar e início de um novo ano. Promessas? Várias! Desejos inconfessáveis soltos ao vento em bexigas brancas, e flores lançadas ao mar, incontáveis! Ali está o ser humano, aqui estamos nós, num misto de nostalgia e apreensão. Olhar para trás tem sentido? Oh se tem! Ninguém avança, sem o empurrão de um passado que se esvai entre os dedos, condensado, porém, em memórias que são tão vitais quanto o ar que respiramos. O futuro é esse baú de onde tiramos coisas novas e velhas (Mt 13,52)! Irmão gêmeo da história a quem não larga a mão, nem quando o nevoeiro cerrado, próprio dos tempos vindouros, o reduz a um invertebrado vulto fantasmagórico.
Ei-lo à porta, esse novo ano que já chega ansiosamente desejado e festejado como ano novo! Se assim não for, se isso não acontecer, resta-nos cambalear pachorrentos pela estrada empoeirada da rotina. Ninguém sobreviveria! Faz-se mister, é imperativo, indeclinável, que essa novidade se imponha sobre o velho. Nada contra este, mas Deus nos fez assim, inclinados para a frente! Olhar para trás, vira-se estátua de sal! Que o diga a mulher de Ló, do livro do Génesis (Gn19,26). Cristãos, pagãos, ou seja, quem for, não declinarão o convite imperativo de ostentar um sorriso de esperança, ao escancararem as janelas da alma, de par em par.
O que 2024 tem para nos oferecer, é um porre de surpresas! Prefiro, contudo, me achar novo em folha para desfrutar o que vier! Ora pois! Como posso traduzir a beleza estonteante de tanta novidade, se o meu arcabouço estiver petrificado e avesso ao devir?! Necessário é que me renove internamente, que nasça de novo (Jo 3,3-16), para viver plenamente o que me espera. Renascer eis a questão! E mesmo que saudosamente me recusasse a avançar, Fernando Pessoa me lembraria entre lágrimas, que “nunca voltarei porque nunca se volta. O lugar a que se volta é sempre outro”! Daí, querido leitor, que a única alternativa seja encarar com galhardia, o que o futuro nos tem reservado.
Outrossim, temos por hábito curtir momentos mágicos de excepcional importância, em transes letárgicos movidos a álcool! Há no ar a burra convicção de que a alegria se alimenta de apropriado combustível! Ora, a abordagem de tão grande mistério, refiro-me a uma virada de ano, no modo inconsciente, é darmos pérolas aos porcos (Mt 7,6)! Fique esperto! Atento! Não entre com o pé direito e sim com o direito de colocar com firmeza os dois pés! Há uma magia no ar, quando os tempos vindouros nos beijam e nos lambem, saudando-nos afetuosamente.
Na Bíblia, temos uma bênção linda que faço questão de aqui deixar aos leitores. “O Senhor te abençoe e te guarde; O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz” (Nm 6,24-26). Eis o momento! Abençoe! Abençoe muito e peça bênçãos sobre bênçãos para o novo ano. Esteja sóbrio quando os ponteiros se despedirem, sem dó, do ano que finda. A sobriedade empresta-nos a clarividência, o discernimento, a ousadia responsável. Fique de pé diante do imponderável, aceite a incerteza e abrace o desconhecido!
Por fim, querido leitor, não se contente com o pouco. A mediocridade não pode satisfazer os nossos anseios de infinitude! No máximo, concorde com Zeca Pagodinho: “Tá ruim, mas tá bom, eu tenho fé que a vida vai melhorar”! Porém, jamais aceite que meio litro de água encha uma vasilha de um litro! Quando Deus te fez, deixou uma fome e sede de vida que nenhuma coisa poderá preencher! Não se esvazie demais se empanturrando com “coisas”! Seja altruísta; tão atento aos problemas globais, quanto à saga do vizinho e do familiar. Não caminhe só pela vida. Contudo, estabeleça, à medida que vai envelhecendo, um pacto honesto com a solidão. O ser feliz, dependerá mais de você do que do novo ano. Mas ele pode ajudar!
Feliz novo ano!
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina