Vivemos em tempos de pandemia, os desafios avolumaram-se. Emprego, escola, atividades diárias, compromissos, entre outros, foram alguns dos aspectos afetados. Entretanto, é preciso lembrar que a pandemia não apenas nos colocou diante de novos desafios, mas principalmente tornou problemas antigos ainda mais latentes.

Geralmente, sem considerar uma análise mais abrangente, costuma-se atribuir todo sucesso ou fracasso de um indivíduo a ele mesmo. Assim, as próprias escolhas, o comportamento, a forma de pensar e agir, entre outros elementos subjetivos são considerados como as razões que explicam o sucesso ou fracasso de um ser humano. Mas não raro, quando aparecem problemas e a necessidade de assumir as consequências das próprias ações, alguns preferem colocar a culpa nos outros, tal como no relato bíblico. Nesse sentido, o contexto de pandemia para alguns é visto como confirmação desse modo de ver as coisas. Afinal, quem não é acomodado e corre atrás das coisas está conseguindo dar conta dos desafios diários e para alguns a pandemia se converteu em oportunidade de crescimento, sobretudo no aspecto econômico.

Para outros, entretanto, a situação da pandemia expôs contradições, colocou a nu um histórico de desigualdade e injustiças, que para muitos poderia parecer imperceptível. Percebe-se que não basta a maior boa vontade para trabalhar, se não houver emprego. Não basta todo esforço e criatividade para empreender se o mercado não der conta de absorver o que se propõe a oferecer. Não raro, é preciso contar com recursos que não se possui para manter um empreendimento, principalmente se estiver em sua fase inicial. Empréstimos podem até ser uma saída possível, mas por outro lado podem levar ao agravamento da situação e posterior fechamento do empreendimento.

Quantos empresários nesse tempo de pandemia tiveram que fechar as portas, buscar alternativas. Quantos trabalhadores dispensados, famílias que ficaram sem fonte de renda e sofrem todas as consequências dessa situação. Por outro lado, seguindo as prerrogativas do sistema, cada um procura sobreviver como pode, não raro sendo obrigado a renunciar à própria dignidade. Se aceita as poucas oportunidades que aparecem, ainda que isso signifique colocar a própria vida em risco. Afinal, esse risco já está posto na situação dada.

Esperar que ocorram mudanças? Não é o que os princípios do sistema atual nos levam a prever. A lógica é de concentração de renda, competitividade acirrada, ainda que os competidores estejam em condições de extrema desigualdade. Então, o que fazer diante de tal situação?

Reconhecer os limites do sistema? Buscar alternativas, ainda que internas e coerentes com a lógica do seu funcionamento? Empreender? Repartir? Acomodar-se? Revolucionar? Com base no modo particular de compreender a realidade, cada um, ou cada grupo, pode considerar e propor as alternativas que julgar mais adequadas. Todavia, o interesse particular geralmente antecede uma busca autêntica do bem comum.

Nesse sentido é oportuno refletir sobre as consequências dessa pandemia. É fato que mudanças já estão ocorrendo. Contudo, se trata realmente de mudanças ou apenas formas mais aprimoradas de manter os problemas não resolvidos? A resposta mais uma vez provavelmente dependerá do modo particular de como cada um compreende o ser humano e a realidade.

Mas por que vejo a realidade da maneira como a vejo?

Luís Fernando Lopes é Doutor em Educação e Professor do Curso de Filosofia da Área de Humanidades do Centro Universitário Internacional UNINTER

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