ESPAÇO ABERTO Depois de tudo...
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sexta-feira, 13 de novembro de 2020
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Oi dona Mariana, como vai a senhora? Soube que nasceu em São José do Rio Preto e fiquei muito feliz com a lembrança feliz de minha adolescência em Black River City – que era assim que chamávamos Rio Preto.
Rio Preto, aliás, me lembra essencialmente três coisas: o frescor da juventude e seus cheiros, com as paixões primeiras que a vida me demandou (Sabine e Bárbara); o colégio São José, dos Padres Agostinianos, e todos os gols que fiz no Mário Alves de Mendonça...
Quanta lembrança legal dona Mariana. Aliás, posso tirar esse dona? Ele dá um tom coloquial que não pretendo neste instante, ainda que sigamos respeitosos no demais – eu e o tom que remanesce sem a dona, falando para a dona do tom...
Eu sei, é confusa a vida às vezes e, lhe digo com os olhos de minha mãe: é mais fácil passar do que pertencer. Passar segue, pertencer permanece...
Ademais de nossa pertença, estar alinha vontade e desejo, misturando passado e futuro, avivando o que foi e reclamando no lume das possibilidades aquilo que deixamos de ser.
Isso tudo mitiga o presente, diminuindo nossa circunstância...
Sabe Mariana, o que vale é o agora. Então vamos seguir sendo, sem medos que nos aprisionem, que a nossa história desenha uma viagem de ida, conforme ensinou o amor de minha vida – e ir é viver...
Gostei muito de saber que você considerou que escrevo bem. É especial para mim ser lido e poder ser entendido. Nem sempre o sou, é fato, pois que as cousas não se desenvolvem como queremos, senão como devem se desenvolver...
Fico muito esperançoso que você leia este outro artigo e identifique uma ou outra fatia do tempo nele, que o tempo em verdade não passa – nós é que passamos por ele...
Sabe Mariana, o tempo é estático e isso nos limita viajar por ele, ainda que não impeça de ele viajar por nós, transpondo os limites do céu multicor...
Sua filha tem me entusiasmado a escrever nesta folha e eu até ontem buscava entender o que ela via na minha prosa. Quando você se manifestou nos conformes que me aportaram, imediatamente descobri porque devo seguir incomodando por aqui: para que entre nós não existam mais os 115 km que separam Rio Preto de Fernandópolis, suposto que todas as distâncias não são senão uma grande Londrina...
Conhecendo um pouco de você, lembrei minha mãe; confinada em quarentena rigorosa (lá em Fernandópolis), pela paixão minha e de meu irmão, dela própria, dos netos e da nora...
Aliás, o que a vida tem com nossas paixões?
Viver segue sendo complicado Mariana e viver confinado, muitas vezes mexe com a gente e faz com que acreditemos em fantasmas que não existem senão no imaginário do desconforto.
O segredo segue sendo ler, Mariana. De toscos artigos como este meu aos grandes livros já escritos. Eu digo isso aos terraplanistas e eles insistem em negar a importância de conhecer – negar e desconhecer, Mariana, seguem sendo sinônimos de mal querer...
Conhecer, a seu turno, segue sendo libertador, Mariana – para além de Rio Preto, com sua Redentora e seu ‘Bambina’; para além de Fernandópolis e do ‘Nosso Bar’; para além de Londrina e do Perobal de minhas memórias imorredouras...
Obrigado Mariana, por fazer meu ‘coração de tinta’ valer as paixões que o celuloide não trouxe. Obrigado tanto quanto pelo entusiasmo que a vida nos reserva, após quarenta anos de abandono do interior paulista.
Sigamos luzindo para as galáxias, eis que as estrelas estão a lembrar que fixar nossa vontade é estancar a hipótese de voar para outras paragens, outros mundos, restabelecendo elos que justifiquem nossos abraços.
Foi isso, enfim, que me trouxe a Londrina – e eu agradeço ao Surfista Prateado essa viagem, que foi para vencermos Galactus que ela se fez...
Vamos juntos então, querida Mariana, em busca do que não conhecemos, guardando a essência do que somos, em atenção ao que já desenhamos – talvez John Fante nos ajude na travessia e Arturo Bandini em pessoa, ladeado de Vera Rivken, nos acompanhe, para que possamos perguntar ao pó.
Seria tudo!
Tristes trópicos, onde memória e desejo não são senão lembranças. Obrigado pai, por ensinar sombra e luz. Beijo Mariana...
João dos Santos Gomes Filho .
Esperando pela primavera!


