Espaço Aberto: Catástrofe das inundações: causas e consequências
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de abril de 2016
Marina Welter Nascimento 
Em janeiro deste ano muitas cidades brasileiras, em estados como Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, foram assoladas por inundações desencadeadas por chuvas potencializadas pelo fenômeno El Niño. Os estragos mais citados por conta dessas inundações foram: rompimento de barragens, perda de bens materiais por conta dos alagamentos, queda de pontes, rompimento de açudes, deslizamentos de terra, falta de água e energia, enfim, danos que atingiram a população de modo geral.
O que pouco se comenta quando esses tipos de desastres ocorrem é: quais são as causas para ocorrerem com tamanha intensidade? quais são as consequências que esses desastres têm sobre os sistemas aquáticos, a fauna e a flora dos locais afetados? a qualidade da água dos mananciais nesses locais foi afetada?
O fenômeno El Niño é conhecido por aumentar as temperaturas das águas do oceano Pacífico, aumentando a temperatura na América do Sul, gerando a seca no Nordeste brasileiro e as intensas chuvas no Sudeste e Sul do Brasil principalmente. Essas intensas chuvas resultam em grandes inundações, que são agravadas pela interferência do homem no ambiente, com a ocupação e uso do solo, tanto em áreas rurais como urbanas, mas principalmente com a impermeabilização desses solos, diminuindo as áreas de infiltração de água e aumentando o escoamento superficial, ou seja, a água que não consegue se infiltrar no solo.
Consequentemente, a frequência de inundações aumenta e estas causam cada vez mais estragos. Com a diminuição na recarga do lençol freático, o abastecimento de água para a população fica comprometido, já que a água dos lençóis freáticos é a responsável por manter os mananciais.
As matas ciliares estão intimamente ligadas aos cursos dágua, por isso têm um papel essencial para a manutenção da integridade dos mananciais: evitam que as enxurradas carreguem agroquímicos, adubos e terra para o fundo dos córregos, rios e lagos; reduzem o desbarrancamento das margens e o assoreamento; conservam a água dos mananciais limpa e com mais abundância, principalmente na seca; servem de abrigo para várias espécies animais, além de ser a fonte de sobrevivência dos mesmos; funcionam como barreira natural; protegem as lavouras e pastagens de pragas e doenças e contribuem para manter a umidade, proporcionando mais chuvas e diminuindo o calor na região.
Apesar de sua importância, as matas ciliares têm sido alvo de pressões antrópicas,justamente pela proximidade com cursos d'água. Essas importantes formações vegetais têm sido devastadas devido à construção de estradas, hidrelétricas, ocupação urbana, agricultura irrigada, ocupação com pastagem para o rebanho bovino, assim como a extração de madeira e minerais. O resultado disso é a ausência destas matas ao longo dos cursos d'água, os quais sofrerão com o assoreamento, deposição de materiais sólidos e poluentes, contaminação da água pluvial e de aquíferos, afetando a qualidade e a quantidade de água captada para consumo humano.
O Código Florestal do Paraná prevê uma série de medidas para tentar preservar essas formações vegetais, como a delimitação de uma área no entorno dos corpos dágua que deve apresentar mata ciliar ou o plantio de compensação pela área florestal perdida. Porém, essas medidas não levam em conta as áreas naturais de inundação, que podem ser maiores do que a faixa de mata ciliar estipulada pelo código, ou as espécies vegetais e animais, que dependem dessas áreas para sobreviver, sem contar a falta de fiscalização, portanto, são falhas.
Planos urbanos de minimização dos efeitos das inundações só serão eficientes quando a conservação das matas ciliares, da fauna e flora que se relacionam com os cursos dágua for levada a sério, do contrário servem apenas como recursos para amenizar essas inundações, não preveni-las.
MARINA WELTER NASCIMENTO é bióloga no Laboratório de Ecologia de Peixes e Invasões Biológicas na Universidade Estadual de Londrina
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