ESPAÇO ABERTO: Adolescência
A série da Netflix mergulha no microcosmos familiar e relacional que precisamos enfrentar com seriedade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de abril de 2025
A série da Netflix mergulha no microcosmos familiar e relacional que precisamos enfrentar com seriedade
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos 
No ônibus, nos shoppings, nas igrejas, nas famílias, o assunto é um só: “Adolescência”! A série da Netflix que, no momento em que escrevo, já deve estar próximo das cem milhões de horas de exibição. Um recorde justificado. Tecnicamente de nível elevado, capaz de “tirar o fôlego” do início ao fim. Muitos, como eu, devem tê-la assistido numa tarde de domingo! De uma tacada só! Aliás, esse é um motivo porque evito assistir séries! Nos empolgamos e quando olhamos o relógio, lá se foram algumas horas de TV! Porém, o que mais atrai é o assunto abordado. Aparentemente existem poucas novidades relacionadas com o “mundo” que envolve os adolescentes. Eles são rebeldes, bagunçam na escola e não são de “muito papo”! Até aqui nenhuma novidade! Eu já fui assim e sobrevivi!
Contudo, a série mergulha no microcosmos familiar e relacional que precisamos enfrentar com seriedade. A família está literalmente perdendo os seus filhos, surrupiados pela internet e seus aplicativos. Fechados num quarto, ignorados, ao ponto de ninguém saber a que horas o “guri” de treze anos chega em casa, os adolescentes no processo de construção da sua personalidade são o alvo perfeito de bullying e todo tipo de sedução e agressão que chegam através das mídias sociais e dos vários aplicativos de relacionamento. Que eles sejam vulneráveis já o sabemos. Mas eles estão ficando sós. Abandonados.
Um amigo me chamou a atenção para o quarto episódio da série e alerto que a seguir temos spoiler. De fato, nele é retratada uma família com os seus “perrengues”, não muito distante da normalidade; mas uma coisa chama a atenção nas palavras dele: “vida que segue, Manuel! Vida que segue”! E foi isso que observei. Uma família que até então estava alheia à vida do filho ao ponto de ficar estarrecida com o crime, mas que agora, perante a sua confissão, toca a sua vida procurando incutir nela o máximo de banalidade.
A série expõe a mão do Estado que procura agir com certa civilidade perante um adolescente que pratica um crime horrendo; a escola que, como muitas outras, apenas evidencia famílias desestruturadas e crianças revoltadas, incapazes de aprender; mostra a sagacidade e a precocidade (alarmante) de uma (quase) criança argumentando com a psicóloga – e essa cena é de fato assustadora – e finalmente nos confronta com uma família, que eu temo ser paradigmática! Estado, escola, família! Três entes impotentes perante a epidemia que está matando nossos adolescentes!
Há vinte anos escutei Bill Gates dizendo que controlava o computador e a internet de sua filha adolescente. No quarto, ela não tinha como se conectar! Gates não é um pai qualquer! É o fundador da Microsoft! Tenho dito ao longo dos anos que só conheço duas armas para enfrentar esse inimigo silencioso, geralmente noturno e que vem devorando vidas inocentes: o diálogo aberto e constante entre pais e filhos e o controle necessário e urgente sobre horários e conteúdo da net. Os filhos não têm o direito adquirido de uso total e irrestrito de aplicativos e os pais não têm o direito de um laissez-faire fatal! Pesa sobre os adultos a responsabilidade de acompanhar, zelar e educar. As escolas cumprirão melhor o seu papel se em casa a tarefa for cumprida!
Finalmente, a série da Netflix escancara um vasto submundo cibernético, de deep web (e muitas vezes beirando a criminosa dark web) raramente testemunhado pela maioria de nós. Precisamos urgentemente aplicar a vacina e criar imunidade em nossas crianças e adolescentes. Elas estão totalmente vulneráveis e o pior, sozinhas! Quando o máximo que um “amigo” faz é ajudar com a arma do crime, foi cruzado o rubicão de qualquer moralidade. E quando nossos filhos optam por esses amigos em detrimento dos pais é urgente parar tudo e rever a engrenagem familiar. Pais não são psicólogos profissionais e, se o forem, não usarão essas prerrogativas com os filhos. Porém, pais têm a obrigação de conhecer os filhos mais do que ninguém! A convivência familiar é a melhor terapia preventiva para esta epidemia!
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese Londrina


