ESPAÇO ABERTO A filosofia no nosso cotidiano
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terça-feira, 30 de abril de 2019
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Um adolescente volta para casa se queixando de que o professor de filosofia ficou falando que Deus não existe, que a ciência é um mito, que a Monalisa é um quadro igual a outro qualquer etc. Por uma destas coincidências o adolescente está doente e os pais o levam ao médico; o médico examina, diagnostica, prescreve um remédio. Os pais vão até a farmácia, compram o remédio, aplicam a medicação e o jovem está agora curado. Mas os pais são pessoas pragmáticas e aproveitam para resolver outro problema; triunfante, eles dizem ao filho: “viu??? Não precisa de filosofia!! O médico não disse que você está ou não está doente; o remédio era um e apenas um. Ao contrário do que aquele teu professor diz, as coisas são sim muito claras e não admitem dúvidas. A filosofia é desnecessária”.
Espero, para o bem dos netos, bisnetos, trinetos, tataranetos destes pais, que o adolescente não acredite nisto. Pois, ao contrário do adolescente, talvez as gerações seguintes de sua família não tenham nem médico nem remédio.
A história da medicina possui vários episódios que mostram seu avanço, mas dois deles são clássicos: a teoria dos germes das doenças e a biomedicina resultante da genética molecular. Em ambas a filosofia esteve presente. No primeiro caso, na palestra dada por Louis Pasteur em 7 de abril de 1864, onde ele apresentou publicamente sua teoria dos germes. No segundo caso, também em outra palestra (na verdade um conjunto de palestras), ministrada por Erwin Schrödinger em Dublin em fevereiro de 1943, na qual ficou consignada a ideia de que fenômenos genéticos deveriam ser abordados à luz da química e da física.
Tanto Pasteur quanto Schrödinger não teriam feito o que fizeram pela medicina sem o apoio da física, da química, da biologia, da matemática e da filosofia. É que Pasteur e Schrödinger não trabalhavam apenas com dados experimentais, estatísticas, equações: eles tinham concepções teóricas amplas sobre a realidade; e o nome genérico destas concepções é um e apenas um: filosofia.
Evidentemente Pasteur e Schrödinger não estavam praticando filosofia; não estavam com dúvidas sobre a existência de Deus, da força da ciência ou de critérios para se definir o que é uma obra de arte; eles selecionaram aspectos de uma filosofia e aplicaram em suas práticas. Mas para que isso fosse possível, é desnecessário dizer, tinha de existir uma filosofia. Felizmente para todos nós que usamos remédios, esta filosofia existia.
Mas poderia ser argumentado: as filosofias que inspiraram Pasteur e Schrödinger não têm nada a ver com estas questões abstratas que um professor coloca em sala de aula. Lamento informar, mas isto está errado. Por exemplo: a concepção fisicalista de Schrödinger é decorrente de discussões conceituais que remetem aos filósofos modernos; a discussão dos modernos, por sua vez, era um diálogo direto com as concepções científicas, metafísicas e religiosas de Aristóteles, concepções estas que foram tratadas exaustivamente pelos filósofos medievais. Assim, se Schrödinger pôde empregar uma filosofia, isso foi graças ao trabalho persistente de dois séculos.
Quem gosta do mundo em que vivemos deve aceitar o médico, a farmácia, os cientistas e os filósofos. E está errado quem gosta de dizer que “sem carro, sem médico, não dá para viver; mas sem filosofia dá sim”. Sem a filosofia (assim como sem ciência) não haveria carro nem médico. E isto não é a opinião de um filósofo, mas uma constatação histórica.
MARCOS RODRIGUES DA SILVA , doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo e professor do Departamento de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina


