Adoção e as perguntas incômodas
Quando uma criança, lá pelos seus 4 anos, pergunta aos seus pais como nascem os bebês, está buscando a sua origem e mostrando curiosidade sobre o funcionamento da vida e dos corpos. Essas indagações por parte das crianças são importantes para que elas construam uma imagem de si próprias mais realista. E agora, quando o filho é adotado e essas questões surgem? Como devem ser respondidas? Como ficam os pais adotivos?
Não se deve esconder da criança que ela é adotada. Ocultar isso seria ocultar a origem dessa criança e sua possibilidade de se construir. No entanto, muitos pais têm dificuldades de lidar com esse assunto porque este remete às suas dores particulares que não foram bem resolvidas. Quando um casal fica impossibilitado de gerar filhos biológicos pode criar uma mágoa. Seja devido à infertilidade ou qualquer outro impedimento o ideal de família que muitas vezes alimentou é destruído gerando sofrimento e sentimento de perda. Muitos pais adotivos têm medo de sentirem essa perda novamente quando seus filhos questionam sobre seus pais biológicos.
A ideia de que os filhos irão certamente procurar seus pais biológicos não é verdadeira. Há muito mais uma curiosidade sobre a sua história de vida do que qualquer outra coisa. Dúvidas sobre porque os pais o abandonaram, sobre o que aconteceu ficarão presente, mas quando pais adotivos e filhos adotados podem aceitar que isso faz parte de suas histórias e da formação de suas famílias cria a possibilidade de todos se construírem como pais e filhos numa base verdadeira. A verdade é sempre importante para todos, mesmo que traga dor. Entretanto, a mentira também traz dor e muito pior.
Pais não são quem apenas geram biologicamente uma criança, mas todos aqueles que se dedicam ao exercício diário da parentalidade. Podem ser biológicos ou adotivos, mas são aqueles que doam tempo, disposição, afeto, carinho e recursos internos e externos para a criação de um lar e de uma família. Quando os pais ficam angustiados e inseguros com o fato de terem adotado seus filhos pode impedir de criar um espaço onde a criança se sinta à vontade para perguntar e se deparar com sua história e aprender que família é muito mais forte do que apenas semelhança entre os genes. Família é uma construção e não uma verdade biológica.

SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicoterapeuta em Londrina

Um giro pelos caminhos da Itália
A não ser as novas gerações e as inevitáveis modernidades, tudo é velho na Itália. Vive-se ali duas épocas, porque é impossível afastar a presença marcante do passado e não vivenciá-lo. Acabo de revisitar esse fantástico país, e ali, lampejos da memória remota me assomam, e me vejo um coadjuvante da obra que se plasmou no então poderoso império ao longo dos milênios, com mesclas de glórias, notáveis criações e também dominações, morticínios e as crônicas escandalosas de papas e dos doze césares. Parece que não se constrói impérios sem esses ingredientes...

Os italianos continuam galanteadores e românticos. Se uma mulher bonita passa, os homens olham e, se possível, dirigem-lhe um galanteio. Vou à pequena Treviglio, na província de Bérgamo, e ali revejo parentes cujos ancestrais do início do século passado não quiseram ou não puderam vir para o Brasil. Meus bisavós vieram, partindo dali. Desculpei-me pelo meu macarrônico linguajar italiano, e Giani Maccarini, o patriarca da família, disse-me que eu falava uma mistura do bergamasco e de idiomas regionais da Itália - a linguagem que aprendi com meus avós no Brasil. Fiquei lisonjeado.

Visito os vinhedos da região da Toscana, e ali se não se bebe um Brunello di Montalcino não se conheceu uma das preciosidades italianas. Igrejas monumentais ostentam arrojos de arquitetura. Sempre extasia entrar no Vaticano, no Duomo de Milão, na catedral de São Marcos em Veneza e na de Florença. Exclamo para Eneida - companheira de viagem (e que dá nome ao poema épico de Virgílio) - que os arquitetos extrapolaram em genialidade ao projetar esses templos, e sabe-se lá quantos braços a erguer e sobrepor pedra sobre pedra, os pintores a inundar de afrescos paredes e tetos; e os escultores a extrair do mármore e do granito aquelas imagens "que só faltam falar". (Em tempo: juntos nesta viagem também Vanusa e Wilmar, Silvana e Viana).

A cada viagem que faço constato mais e mais o óbvio: que os seres humanos são idênticos, pois têm iguais anseios, sentimentos e emoções, e me pergunto por que os homens criaram fronteiras, delimitando espaços e exigindo um documento como salvo-conduto para as pessoas se locomoverem de um lugar para outro nesta tão minúscula morada terrena.

WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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