ESPAÇO ABERTO
Precisamos falar sobre o 'homem nu'
Pedro Vinicius Rossi
Ódio rasgado sobre o artista, ou sobre a performance, ou qual seja a pauta do desconhecimento de alguns poucos. Quem? Aqueles mesmos que nada pouco se esforçam para construir sob anedotas conceituais vazias interpretações rasas e pífias, caducas de qualquer interpretação e ou conhecimento sobre o tema abordado. Aqueles mesmos entendidos do assunto, que não estudam nada de coisa nenhuma, exploram de uma vazia verborragia intensa quando discordam mesmo sem saber fundamentalmente por que de uma performance artística.
E dessa vez, sobre o que se dá tamanha e intensa verborragia, ou novamente: do que dizem ser [ou não] belo, artístico, performático? Dan não é simplesmente um homem nu. Dan é um símbolo, uma figura, um ser. Naquele ambiente artificial, intocável e imóvel, sob a construção de outra pele, usa da interação como elemento dessa experiência que flerta entre teatro e ritual. O corpo é sua matriz simbólica. A performance é o seu rito, uma passagem numa quebra da realidade aparente.
Mas não espanta saber que o trivial do desconhecimento, ou o aspecto primário da nudez, foi a madre do descontentamento e do ódio de falsos conservadores, possíveis crias de políticos charlatães, e outros exemplos de protofascismos ascendentes. Numa defesa caduca de uma falsa moral advinda das ideias de uma pseudo-família modelo, inventada numa rememoração a uma conservadora ênfase cultural de séculos passados, desprovida de análise ou crítica ou construção de um argumento fundamentalmente concreto e/ou provido de algum raciocínio.
Imagino, alegoricamente, um retrocesso basal ao que foi feito da primeira versão do "Cristo della Minerva", esculpido em mármore por Michelangelo, em 1521. Ou mesmo uma retomada da castração realizada pelo papa Clemente 13 que, no século 18, censurou as obras presentes no Vaticano com uma simplória folha de parreira. O que seria feito aqui da "Verdade sob Véu", de Antonio Corradini (de 1750), ou do "Davi" de Michelangelo (de 1504)? Talvez, até mesmo "O Pensador", de Rodin, seja agora um problema: tão-somente por pensar?
PEDRO VINICIUS ROSSI é professor e sociólogo, especialista em Ensino de Sociologia, pós-graduando do curso de mestrado em Ciências Sociais na UEL
Precisamos de mais bocas abertas
Walmor Maccarini
Se o vereador cassado extrapolou em seus comportamentos e feriu o decoro parlamentar, falta maior é os demais 18 vereadores consentirem em receber polpudo salário (em torno de R$ 13 mil) e não tentarem rever tal situação de descalabro e nem reagir ao regimento que permite uma alta e desnecessária cota de assessores. Não culpemos os assessores, mas se seus patrões pouco de útil fazem como "representantes do povo", a produção da equipe de auxiliares será idêntica.
Se o vereador Boca Aberta, como era conhecido, abriu demais a boca, não poderia ser punido por isso, chato ou inconveniente que fosse, nem por causa de uma ajuda pública que pediu. Os analistas dizem que já não há lugar para o populismo. Estão certos, porque agora o lugar é reservado para os corruptos e corruptores... Lugar para estes há de sobra, nas câmaras de vereadores e outras funções públicas em 5.600 municípios, nas 27 Assembleias Legislativas, na Câmara Federal e no Senado, nos Ministérios, no funcionalismo público impregnado de assessores de coisa nenhuma. E está aí também a desconfiança manifestada pelo povo a membros do Judiciário e a presidentes da República - o atual e anteriores.
Se os vereadores que cassaram o companheiro levassem tão a sério o decoro, proporiam a diminuição de seus ganhos ou os eliminariam de vez, como acontece em alguns burgos de países mais adiantados. Porque para estes, tal função é honorífica, quando aqui no Brasil é um rendoso emprego, regado a mordomias. Ao menos o vereador cassado teve a dignidade de dizer que os seus pares estavam ganhando muito, e consta que a maior parte de seu ganho de parlamentar ele estava destinando a um hospital público. O vereador defenestrado incomodou, até por inabilidade e irreverência, mas de certa forma ele fazia coro com os clamores do povo. Enquanto nós brasileiros não abandonarmos o comodismo e continuarmos com receio de enfrentar os políticos que nos exploram e pouco nos servem, continuaremos assistindo a barbaridades. Precisamos de mais bocas abertas, contra eles e contra todos os que cometem desmandos neste país.
WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina
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