Ultimamente, as coisas têm andado meio agitadas na peixaria da Alameda Brasil. A movimentação dos consumidores, cada vez mais exigentes, é bem maior do que nos últimos anos. Mas não é só isso. Entre os donos de barracas, há não só agitação, mas tensão. Cada um deles quer ser o vendedor número um da peixaria.

Para isso, seu João aposta na imagem. De vez em quando, ele aparece com alguma fantasia extravagante, só pra chamar a atenção. Na maioria das vezes, funciona. Apesar de também vender peixe, e no mesmo ambiente que os outros, ele garante não ser vendedor. Diz que é apenas um gestor daquela barraca. E se tem alguém de quem seu João não gosta, é do seu Luiz.

Há quem diga que seu Luiz já foi um dos melhores vendedores da feira de peixes. Sujeito simples, mas muito habilidoso com as palavras, ainda consegue atrair muitos clientes, alguns de longa data.

O único que se dá bem com o seu Luiz é o seu Ciro, um cearense arretado, de sangue quente e sem freios na língua, do tipo que faz ameaças até contra a polícia.

Mas a unanimidade é o seu Jair. Ninguém gosta dele. Também, pudera. Seu Jair é um velho encrenqueiro, que vive caçando briga com todo mundo. Às vezes, nem os próprios consumidores escapam. Certa vez, chamou de vagabunda uma mulher que criticou a qualidade de um peixe.

Todo mundo tem na família um tio ou avô reaça que se parece com o seu Jair. Basta alguém entrar no assunto que ele dá um jeito de defender a ditadura, criticar os "veados" ou os direitos humanos. Já chegou a dizer que mulher tem que ganhar menos e que os afrodescendentes dos quilombos não servem nem para procriar. É por meio da polêmica que seu Jair quer se tornar o maior vendedor da peixaria. E a molecada adora rir do que ele fala.

Mas entre os vendedores o clima não está para risadas. Seu João anda dizendo que seu Luiz quase destruiu a peixaria com seu jeito de fazer negócios. Seu Luiz responde que seu João está querendo chamar atenção: "Tô mais preocupado com o meu próprio peixe". Mas seu João insiste afirmando que seu Luiz é o maior cara de pau da Alameda Brasil.

Seu Ciro, claro, defende o amigo. Chama de farsante o tal "gestor" e garante que, fosse no Ceará, ninguém compraria peixes desse cabra. "Lá a gente chama isso de palhaçada".

E seu Ciro vai além: diz, sem meias-palavras, que prefere o seu Jair, mesmo com todos os defeitos, e que tem vergonha das atitudes do seu João. Este não deixa por menos. Responde que o vendedor cearense é louco e desequilibrado.

No meio dessa briga de gatos, é na base do grito que cada um tenta vender seu peixe. Sempre tem alguém pra comprar, mesmo que por falta de opção.

FILIPE MUNIZ é estudante de Jornalismo na Unopar em Londrina

O embate entre duas ideias

O capitalismo tem defeitos? Tem, e muitos. Devemos nos conformar com seus defeitos? Não, não devemos. São essas duas perguntas e suas respostas que levam os autoproclamados "esquerdistas" a aderir ao socialismo, sob o argumento de que, "se o capitalismo tem defeitos e se não devemos nos conformar, então cumpre destruí-lo e substituí-lo por outro sistema, o socialismo".

Até aí, há certo encadeamento lógico no raciocínio, e a solução seria correta se não fosse por um detalhe: o socialismo é muito pior, pois, além de não ter as qualidades do capitalismo, não conduz o povo ao bem-estar social e ainda acrescenta-lhe defeitos inaceitáveis.

As principais qualidades do capitalismo são as seguintes: é o mais eficiente sistema de geração de riqueza; e é o único sistema compatível com três liberdades: a liberdade individual, a liberdade política e a liberdade econômica. Já os principais defeitos são os ciclos econômicos, que alternam períodos de expansão e períodos de recessão, e a desigualdade de renda entre as classes sociais. Mitigar ambos os defeitos, essa é a principal função do Estado.

Os males do socialismo são: falta de liberdade individual, decorrente da proibição à pessoa sobre a decisão do que fazer de sua vida e de apropriar-se dos frutos de seu trabalho; a eliminação da liberdade econômica, pela supressão do direito de empreender e do direito de propriedade; e a inexistência de liberdade política, pela proibição do direito de divergir e de escolher livremente os representantes do povo.

Por seus defeitos, sobretudo o veto de o indivíduo empreender e deter propriedade com o próprio trabalho, o socialismo destrói o ímpeto produtivo, o espírito empreendedor e a capacidade inovadora do homem. O socialismo real nunca se mostrou capaz de gerar riqueza, sem o que a solução da pobreza torna-se inviável.

A sociedade é algo complexo e o mercado resulta de bilhões de decisões diárias. Não há sistema de governo nem aparelho burocrático capaz de descobrir, item a item, o que produzir e quanto produzir, nem capaz de despertar o espírito de criação e inovação. O mercado, embora com defeitos, é o melhor instrumento inventado para prover o atendimento às necessidades e desejos da população. Tudo o que foi tentado de diferente não conseguiu eliminar os defeitos do mercado e ainda acrescentou-lhe defeitos novos, dos quais os piores são a escassez de produtos e as crises de abastecimento.

Um pedaço de madeira, retirado de uma árvore, é um recurso escasso e finito. Decidir se deve virar uma mesa ou uma escultura não é tarefa para nenhum burocrata, mas para a livre manifestação da sociedade sob o sistema competitivo de preços. O mercado é um sistema de votação diária, no qual bilhões de operações são realizadas a cada hora entre compradores e vendedores, produtores e consumidores.

A questão é simples: o socialismo – no qual não é permitido o direito de propriedade privada e tudo é produzido pelo Estado sob a gerência de funcionários e não de empreendedores – não é capaz de cumprir as complexas funções econômicas em um mundo de tanta complexidade. Ademais, o ser humano não é um anjo de bondade; antes, é um animal racional movido a interesses e incentivos, que são os insumos da criação, da inovação e da disposição para correr riscos.

Assim, no embate entre as duas ideias – a socialista e a capitalista –, o capitalismo revelou-se mais eficiente para resolver as questões econômicas essenciais e promover a prosperidade material. Mitigar-lhe os defeitos (já que não é possível eliminá-los) é o grande desafio da sociedade e do Estado.

JOSÉ PIO MARTINS é economista e reitor da Universidade Positivo em Curitiba

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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