Motos na faixa exclusiva de ônibus

Segundo nossa Lei Federal n° 12.587/2012, que dispõe sobre a Política Nacional de Mobilidade Urbana, as cidades não devem medir esforços para reverter a lógica de incentivo ao transporte individual motorizado, ou seja, devem adotar medidas que desenvolvam o transporte coletivo e o não motorizado. Mas, em Londrina, o esforço é às avessas: o vereador Jairo Tamura (PR) protocolou um projeto de lei para liberar o tráfego de motos na faixa exclusiva de ônibus. Nas palavras do vereador, a frota de ônibus é menor do que a de motocicletas, então, disponibilizar o espaço dos ônibus para motos "não vai interferir muito".

São apenas 18 quilômetros de faixas exclusivas para o transporte coletivo em Londrina. Por outro lado, são centenas de quilômetros de vias feitas para prestigiar principalmente o uso do transporte motorizado individual, ou seja, carros e motos. Parece irônico atribuir aos 18 quilômetros de vias exclusivas do ônibus a premissa de manter a segurança dos usuários de motocicletas. As ultrapassagens envolvendo ônibus e motos na faixa exclusiva prometem um incremento de acidentes, sem falar na possibilidade de morte de pedestres com a diminuição do tempo de travessia da avenida.

São mais de 160 mil passagens de ônibus por dia na cidade. Só nas avenidas Winston Churchill, Rio Branco e Francisco Gabriel de Arruda, equipadas com a faixa exclusiva de ônibus, são 37 mil passageiros por dia, distribuídos em 740 viagens de ônibus nesses trechos. Segundo pesquisas do Ippul, foram 23,4 mil pessoas transportadas por dia em veículos motorizados individuais. Note: uma única faixa exclusiva de ônibus transporta mais gente do que duas pistas comuns. Faz isso porque é, de fato, uma faixa exclusiva de ônibus, e não uma faixa mista de ônibus e motos.

Mais uma vez, vemos uma proposta de lei pretendendo concretizar a soberania do interesse individual em detrimento do coletivo. Uma proposta que se mostra inconsistente e egoísta, que só deveria ser redigida depois de passar por um grupo técnico competente para lidar com questões de tráfego.

Para mais informações sobre a eficiência das faixas exclusivas de ônibus em Londrina, consultar o trabalho de Cristiane Biazzono Dutra e Alexandre Morande Becker intitulado "A experiência das faixas exclusivas para ônibus na cidade de Londrina", disponível gratuitamente para download no site da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos).

DANAÊ FERNANDES é especialista em Planejamento de Tráfego e atua em Planos de Mobilidade Urbana em Londrina


Ouro Verde salvo de virar banco

Agora que o Teatro Ouro Verde será reaberto, achei oportuno contar a história que livrou essa casa de espetáculos de virar banco. Particularmente, entro no caso, e não posso negar que com um certo ufanismo. Ocorre que o outrora cine-teatro já estava com o contrato pronto para ser vendido ao Banco Itaú, que sediaria ali mais uma de suas agências. Na época eu comandava a chefia editorial da Folha de Londrina e, informado da iminência dessa transação, tive uma reação de inconformismo e achei que devia intervir. A função me dava algum poder de influência e decidi que deveria usá-lo.

Cleto de Assis mudara-se de Brasília para cá para assessorar Oscar Alves, reitor da Universidade Estadual de Londrina. Jornalista e artista gráfico, Cleto passaria a atuar também na FOLHA, e foi aí que o conheci. Oscar era genro de Ney Braga, ministro da Educação, ex-governador e poderoso líder político, partidário de Jayme Canet, que então governava o Paraná. Apressei-me em pedir a Cleto que informasse Oscar do iminente negócio com o banco. Oscar então moveu Ney e este moveu Canet, sugerindo ao governador que adquirisse o histórico imóvel para a Universidade. Estabeleceu-se uma corrente, a negociação com o banco acabou suspensa e o Ouro Verde passou para a UEL. A propriedade pertencia a Celso Garcia Cid, notável pioneiro de tantas realizações e que tivera um dia a ideia de construir na nascente Londrina esse cinema, que seria a mais luxuosa casa do gênero no Brasil. Eram seus sócios Jordão Santoro e Angelo Pesarini.

Das confabulações, consta que Ney Braga, sugestionado por Oscar, ligara para Neco Garcia Cid, filho de Celso, pois o patriarca já havia falecido, mencionando o interesse de o Ouro Verde ser adquirido pelo governo e transferido para a Universidade. Tal viria a acontecer. O valor do negócio com o governo não foi revelado. O que sabe é que Ney sugeriu a Canet que entrasse com metade e que ele, Ney (ao afirmar-lhe que voltaria ao governo do Estado), pagaria o restante. O resultado final foi que o cine-teatro não virou agência bancária e aí está, são e salvo.

WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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