Perigos próximos

Um dia no shopping vi um menino, de mais ou menos 3 anos, correndo alegremente entre as pessoas. Ele era muito simpático, uma graça, passou por mim e quando notou que eu o olhava me abriu um sorriso encantador. Procurei ao redor quem estava com ele e não achei ninguém que estivesse realmente atento ao menino. Continuei olhando até que uma hora o menino falou com quem acredito fosse o pai dele. Só que o pai estava de costas, sem desviar sua atenção do celular e bebendo cerveja. O menino continuou passando entre várias pessoas e me dei conta do perigo que corria. Está certo que shoppings têm câmeras, mas mesmo assim alguém mal-intencionado poderia fazer algum mal àquele garoto e até mesmo levá-lo embora. Fiquei preocupado com aquele menino que estava só e sem ser devidamente cuidado. Quantas crianças por aí não são cuidadas adequadamente? Que estão sozinhas no meio de tantos e assustadores perigos? Como uma criança aprenderá a se cuidar se ela não é, primeiro, cuidada? Quando somos cuidados, quando percebemos que alguém zela por nossa integridade, física e mental, temos a chance de internalizar esses cuidados e aprender a nos cuidar e zelar por nosso bem estar. Assim, o olhar que tinham para conosco transforma-se no autocuidado tão necessário. Queremos que muitos jovens saibam reconhecer o perigo e se defender das ameaças do mundo, mas isso será algo impossível porque esses mesmos jovens nunca viveram de forma plena uma experiência de ser cuidado e por isso não têm condições de se protegerem apropriadamente. Quem não sabe se proteger aceita qualquer convite mesmo que este leve ao perigo. Quem nunca foi cuidado pode acabar até se relacionando com pessoas agressivas e abusivas no futuro e nem entenderão que poderiam evitar esses relacionamentos.
Cuidar de uma criança, entretanto, não é deixá-la medrosa e desconfiada de tudo e de todos. Isso também não ajudaria em nada e só a deixaria numa posição vulnerável. Como sempre o equilíbrio é que é bom. Devemos ajudar os pequenos a investigar e descobrir o mundo ao seu redor, mas também cuidar para que eles aprendam a reconhecer os perigos próximos e não aceitar qualquer convite que em princípio soa muito bom, mas que pode ter resultados trágicos. Desse jeito, uma criança crescerá para se tornar um adulto mais preparado para a vida.

SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicoterapeuta em Londrina




Cada um de nós é a pátria

Mais uma vez, e usando as mesmas reflexões e as mesmas palavras, revejo meus valores e concluo que atribuí importância exagerada àqueles que elegi, e me escandalizei com a inoperância, a baixa moral deles e seus desmandos. Penitencio-me, porque eles são reflexos de mim mesmo e do meio em que vivo. Mas agora ponho-me de pé e à ordem, porque a pátria não é constituída apenas pelos governantes, mas por toda a nação brasileira de 200 milhões. Cada um de nós é a pátria, então temos de definir o que queremos.
Se apenas fico indignado, minha mente se turva e não consigo raciocinar claramente, mas se me levanto e deixo escapar meu brado de protesto, torno-me existente e visível, posso impulsionar mais um e seremos dois, que impulsionarão mais dois e seremos quatro, e assim sucessivamente. Minha sensação de impotência foi pouca coragem e baixo grau de decisão e cidadania. Recuso-me a acreditar que os valores maiores estão perdidos, porque acredito-me possível, com fé convicta no poder que carrego comigo.
Os corruptos e os corruptores são aspectos de minha pátria defeituosa. Em parte também contribuí para torná-la assim, por negligência, conformismo, comodidade e alguns outros comportamentos semelhantes. Também tenho perdido tempo com lamentações e me apequenei ao fazer grandes certos líderes que pouco tinham de grandeza. Mas não quero odiar os governantes e nem os malfeitores, porque isto me corrói e me cega, e assim perco o rumo. Desejo, sim, que eles se emendem, pela iluminação de suas consciências, e pelo que posso contribuir com os meios de que disponho.
Se apenas busco levar vantagem, se fujo de minha responsabilidade de cidadão, se não cultivo a esperança e ainda aniquilo com a do meu próximo, se não controlo meus pensamentos, palavras e atos, se apenas penso em competir e não em partilhar, se semeio maledicência e, disfarçadamente, pratico formas de enganação, então passo a fazer parte da pátria marginal. Não quero que os governantes me mudem, mas mudo a mim mesmo. Se eu for melhor, eles serão melhores.

WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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