Opinião Atualizado em 16/05/2017, 23:00
ESPAÇO ABERTO
Há uma história sobre uma mulher que tinha só três fios de cabelo. Ela acordou uma manhã, viu-se no espelho e decidiu que iria fazer uma trança para aquele dia e seu dia foi ótimo. Na manhã seguinte, ao acordar, notou que tinha só dois fios de cabelo e resolveu seu penteado repartindo-o no meio e seu dia foi ótimo. Em outra manhã, só restou um fio de cabelo e ela decidiu que iria fazer um rabo de cavalo e teve um ótimo dia. Até que chegou uma manhã, contudo, que ao se ver no espelho percebeu que não tinha mais cabelo algum, mas ela vibrou e disse para si própria que não precisava arrumar o cabelo naquele dia que acabou sendo, como quase sempre, ótimo.
Obviamente, essa história é apenas simbólica e não para ser tomada literalmente. Todavia, ela nos mostra uma verdade da vida. A verdade é que dependendo de como olhamos para a vida nossas experiências podem ser boas ou ruins. Conforme a lente que usamos para olhar o que nos acontece, nossas vivências e interpretações terão naturezas distintas.
Não se trata, entretanto, de manter pensamentos positivos. Quantas vezes você já tentou pensamentos positivos e nunca deu certo? Aposto que muitas. Não se trata de, superficialmente, olhar o lado bom da vida, colocar um sorriso na cara e acreditar que isso resolve tudo. Quem dera fosse fácil assim. Trata-se, portanto, de uma nova consciência, de um novo relacionamento para com a vida. Trata-se de sentir o que fazemos e como vivemos para perceber que vivemos de maneira ineficiente.
Quem aqui já não se deparou com um rompante de raiva e acabou brigando com todos e tudo e depois se arrependeu? E ainda prometeu que isso não ia acontecer novamente? Só que não adiantou e esses momentos de rompantes ocorreram inúmeras outras vezes. A pessoa até entende, racionalmente, que essa raiva e explosões são prejudiciais, mas não tem consciência do quanto estão se prejudicando. Há uma divisão entre o que entendem superficialmente e o que sentem de fato. E o que faz alguém mudar não é o entendimento, mas o sentimento.
Quem fuma sabe muito bem que esse hábito é prejudicial à saúde, mas mesmo assim continua fumando. Sabe e entende os danos do cigarro, porém não sente de maneira nítida o mal que está fazendo consigo próprio. Se tivesse essa consciência, pararia de fumar imediatamente e teria um autocuidado para com sua vida. A consciência de que somos responsáveis pelas nossas vidas e por muito do que nos acontece é fundamental para se viver bem.
Viver uma vida melhor não se trata apenas de mudar as condições externas, mas acima de tudo de transformar as condições internas. Isso é um processo e não se dá mantendo um olhar superficial positivo, porém criando condições para emergir uma nova consciência sobre nós, para ver claramente como vivemos e como podemos viver. Quando uma nova consciência pode surgir podemos escolher como viver, mas antes de uma verdadeira consciência nascer é impossível escolher o que quer que seja.
Escolher a forma que vivemos é uma atividade consciente, é preciso estar desperto. Quem permanece adormecido se engana acreditando que escolhe algo, mas na verdade acaba sempre se repetindo e aprisionado nos mesmos erros, dores e atitudes. No entanto, despertar não é mesmo fácil e é um trabalho para a vida toda. Não há descanso e férias desse trabalho e por isso mesmo é tão importante começá-lo já porque no fundo estamos todos atrasados.
SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicoterapeuta em Londrina
Vivemos em um país diverso e desigual, em que cerca de 40% da população urbana não tem acesso à cidade legal. A moradia é um elemento escasso, negociada de forma seletiva em um mercado repleto de burocracias e normas confusas, que impulsionam o surgimento de ocupações irregulares. Nesse cenário, é comum que famílias que não contam com renda suficiente para ter acesso ao mercado imobiliário formal ou às políticas públicas acabem "dando um jeitinho" para suprir sua necessidade básica de abrigo.
Entre os artifícios utilizados encontra-se a construção de "puxadinhos". Uma situação corriqueira decorrente desse hábito é a da família que constrói um novo espaço para abrigar um filho recém-casado que, após algum tempo, acaba se mudando e alugando, vendendo ou cedendo esse espaço, muitas vezes sobre a laje, para alguém externo à família. Em vários locais do país, alguns com maior frequência, a comercialização da laje é uma prática corriqueira que produz, em alguns bairros mais populares, uma paisagem com as pequenas edificações formadas por "puxadinhos".
Alguns moradores vinham tentando, sem êxito, regularizar essa situação com base no direito de superfície previsto no Estatuto da Cidade. Pode-se afirmar que a Medida Provisória nº 759/2016 é mais uma tentativa de normatizar algo que, há muito, já é feito na prática. A MP trata de uma série de outros assuntos que vêm sendo criticados por diversos grupos organizados, mas que não serão discutidos aqui. O fato de ter sido aprovada como medida provisória, e não como projeto de lei, limitou as discussões, deixando diversas questões em aberto.
A MP rompe com o princípio geral do direito de que o acessório segue o principal, desvinculando a matrícula da edificação (acessório) do terreno (principal). Dessa forma, cria uma situação nova em que o proprietário da edificação não possui uma fração ideal do terreno, como ocorre nos condomínios. A manutenção do terreno caberá exclusivamente ao proprietário original? Como regularizar o "andar" de uma edificação, normalmente feita no processo de autoconstrução, sem o auxílio de um profissional que ateste a estabilidade estrutural dessa obra? De acordo com a MP, o adquirente do direito real de laje não pode instituir sobrelevações sucessivas. Como ficam as edificações com três ou mais pavimentos? A laje deve ter isolamento funcional e acesso independente. Como proceder nos casos, tão comuns, em que a pessoa para ter acesso ao pavimento superior deve passar pela residência térrea? Deve-se constituir uma servidão de passagem? É possível adquirir usucapião da laje? Muitas questões ainda precisam ser regulamentadas pelo poder público.
O direito real de laje constitui um avanço em um país em que a segurança jurídica e o acesso à terra não são para todos. Ele auxilia na permanência legal da população em áreas já consolidadas, reduzindo o processo de periferização e ocupação em áreas ambientalmente frágeis. No entanto, deve ser pensado de forma a garantir a qualidade urbana, condições de habitabilidade e segurança - e não apenas como forma de legalizar a precariedade e de aquecer a economia pelo acesso ao crédito e cobrança de impostos nos imóveis regularizados sobre a laje.
RIVAIL ANDRADE é professor titular do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Positivo.
Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgada em fevereiro mostrou que o Brasil é campeão mundial no índice de ansiedade, com 9,3% da população atingida. Essa disfunção engloba várias outras, como ataques de pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, fobias e estresse pós-traumático. As mulheres são as que mais sentem as consequências: 7,7% delas são ansiosas, contra 3,6% dos homens.
Poucos sabem, mas a ansiedade pode ser atenuada com uma prática simples: a gratidão. O ato de agradecer leva a mente da pessoa ao momento presente e evita que ela sofra por decisões passadas ou incertezas futuras. A gratidão nos faz viver o agora, seja agradecendo pelo café da manhã, por um bom dia que recebemos ou por um sorriso. Agradecemos pelo que mais de maravilhoso ocorreu no nosso dia e, seguindo essa linha positiva, ficamos esperando por mais coisas boas.
A ansiedade é justamente o oposto disso. Ela nos faz sofrer por coisas que estão lá na frente, que podem ou não acontecer e que te fazem ter medo do que ninguém sabe. É um vírus que entra pelo corpo e, sem o devido cuidado, estabelece raízes cada vez mais profundas, um constante ciclo de sofrimento que ninguém controla. É hora de refletir se sentir-se dessa forma vale a pena. Afinal, por que sofrer pelo que não se sabe? Isso é injusto com nós mesmos.
Coloque seus pensamentos no presente, no aqui, no agora. Pergunte-se: eu mereço sofrer dessa forma por algo que eu nem sei qual será o resultado? Mereço me sentir angustiado assim? Agradeça por ter a oportunidade de fazer algo que tanto queria em vez de se esconder debaixo das cobertas. A ansiedade deve nos dar aquele prazer em passar pelas situações por simplesmente estar ali, tentando com todas as nossas forças, e não nos afetar de tal maneira que nos condene a evitar situações mais difíceis. Afinal, momentos que exigem mais de nós sempre existirão.
Toda mudança precisa de um começo e tudo pode mudar se nós quisermos, basta começar agora. Confira algumas dicas para controlar a ansiedade:
■ Saia da zona de conforto: vá àquela feirinha de domingo. Passeie. Vá ao parque. Comece um livro. Não precisa ser nada luxuoso, apenas faça algo que te tire da rotina e te faça expandir os horizontes;
■ Organize-se: a ansiedade muitas vezes surge por termos uma grande quantidade de atividades para fazer. Então, evite transtornos, pare de procrastinar e coloque na agenda as tarefas mais importantes e que precisam da sua atenção com urgências;
■ Foque no presente: isso é um exercício diário. Planejar é, sim, muito importante, mas comece a pensar no dia de hoje, faça com qualidade e deixe pra se preocupar com o amanhã quando ele chegar;
■ Agradeça: seja grato por hoje e por ter a chance de poder se testar e fazer coisas novas;
■ Mude de atitude: trabalhe sua autoestima e pense positivo. Quanto mais energia boa você atrair, mais confiante se sentirá.
MÁRCIA LUZ é psicóloga, professora, coach, autora do livro 'A gratidão transforma'
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