Somos ou não um País sério?



O Brasil passa - sempre passou, mas hoje está pior – por uma crise séria de identidade. Ainda não descobrimos o que queremos de fato ser, se somos um povo que aceita ou que repudia a corrupção. Ora, é claro que todo mundo é contra essa tal corrupção, ou não sentimos orgulho em ver a lista de Fachin, profícuo ministro do STF, que teve porte à altura do cargo para trazer à luz tantos nomes? Pois bem, trata-se de tudo ou nada. Ou seja, não existe meio honesto e não existe meio corrupto. Não podemos combater a corrupção política e aceitar a pirataria, furar a fila, não devolver o troco errado, entre outras pequenas corrupções do cotidiano. Afinal, ser ético é difícil quando a moral já não ajuda tanto. Digo isso porque parece ser muito mais valorizado aquele que visa vantagem em tudo, nem que para isso precise justificar o atraso com a desculpa do trânsito, mentir um atestado para não assumir a ressaca da segunda-feira e com esse know how aprimorar desvios de verbas e outras coisas que são tão combatidas. Que todos repudiam os políticos corruptos é um fato notório, mas esquecemo-nos que eles são eleitos, comprando votos ou não!
Efeitos de um regime democrático representativo que, depois de quase trinta anos de democracia, não aprendemos a operar. Temos inúmeros instrumentos de repressão àquilo que não comporta a res pública, seja o voto, o plebiscito, o referendo, a lei de inciativa popular ou o próprio impeachment, este último já utilizado por duas vezes, inclusive. Enfim, nossa democracia não anda bem, e isso não é culpa de um ou de outro, senão de todos, pois é muito exigir do Brasil a separação entre o que é público e o que é privado, sem falar em nepotismo dos mais variados, ou então separar o certo do errado, quando nos deparamos com uma memória seletiva no que diz respeito a reconhecer governantes que erraram feio e lesaram um incontável número de pessoas. Temos uma Comissão da Verdade que pode investigar e não pode punir crimes da época da ditadura. Temos violências domésticas encobertas sob a desculpa de que o agressor é arrimo de família e temos gente que prefere cumprir pena judicial para a família receber auxílio-reclusão. Temos uma crise econômica para lidar e nos preocupamos com o resultado do jogo na tarde de domingo.

VINÍCIUS ALVES SCHERCH é advogado em Bandeirantes


Não só comemorar, mas agradecer



Faz cinquenta "Dias do Trabalho" que leio e ouço que nada há a comemorar nessa data. Mas se não há nada a celebrar, como muitos pensam, esta é uma ocasião propícia para agradecer. E não apenas agradecer nesse dia, mas em todos os dias. Porque é o trabalhador que sustenta a vida, dele mesmo, da família e de todos nós. É o trabalhador do campo, sob a inclemência do sol ou do frio, que sulca a terra, deposita nela a semente e faz a terra germinar, propiciando que o alimento nos chegue à mesa. Mas poucas vezes nos lembramos de fazer-lhe um agradecimento, mesmo que mentalmente. E se o fizermos, de alguma forma ele captará essa vibração. Há aqueles que abominam o agronegócio, mas bem que, nas rodas filosóficas dos botequins, apreciam beber uma cerveja, que resulta da aveia, da cevada, do milho, cultivados na lavoura; e apreciam o salaminho, que não é produzido pelo cozinheiro do bar mas originado do campo. Os ditos intelectuais da cidade ainda qualificam esses labutadores da roça de caipiras e criticam as músicas que eles apreciam, que é a sertaneja.
É o trabalhador braçal que edifica as moradias, carregando pesados baldes de argamassa e sujeitos aos perigos de acidentes e de queda das alturas. Mas entramos nessa nova habitação sem ao menos dizer-lhe, pelo sentimento, um "muito obrigado". Sim, pagamos por ela, mas alguém a construiu para nós, com o suor do rosto e um ganho que não é lá essas coisas... É a secretária doméstica que faz a comida, lava e passa nossas roupas, limpa a casa e o chão, e muitas delas ainda cuidam de nossos filhos. É o lixeiro que faz o pesado e malcheiroso recolhimento dos nossos detritos, mas ao passarmos pela carga que ele vai empilhando ainda torcemos o nariz, não imaginando que tudo aquilo é produzido por nós. Em contrapartida, também cada um de nós, com nosso trabalho, está servindo ao lixeiro e a tantos, eis que somos todos interdependentes. A costureira tece nossa vestimenta, o sapateiro nos abriga os pés, o chapeleiro nos protege do sol; o mestre nos ensina, o comunicador nos fornece a notícia, o motorista nos transporta, o pesquisador e o descobridor criam os medicamentos, o médico e o enfermeiro os ministram e curam nossos males. E tantos outros. O jardineiro cultiva as flores, mas nunca lhe enviamos uma imaginária flor... Se no Dia do Trabalho não há nada a celebrar, celebremos isto!

WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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