Opinião Atualizado em 16/06/2017, 18:53
ESPAÇO ABERTO
Está todo mundo chocado com o tal do desafio da baleia azul que está rondando os jovens através da internet. Nesse desafio, os jovens são instigados a completar determinadas "tarefas" para prosseguir para a próxima etapa. Quem completa todos os desafios ganha "sucesso" e o "respeito" dos colegas. O problema, contudo, é que os desafios são autodestrutivos e vão, à medida que se passa de fase, tornando-se mais perigosos até chegar o desafio final que é o suicídio. Como um jogo desses pode fazer tanto sucesso e constituir uma ameaça que está dando o que falar?
Diga-se de passagem que desafios assim não são novidades. Isso existe há séculos. A roleta russa, por exemplo, sempre foi um jogo perigoso que ceifou a vida de muita gente. Até mesmo antes de existir armas de fogo existiam jogos com espadas e facas que atentavam contra a vida e o bem-estar. Portanto, esses jogos não são novos, apenas mudam de forma e, com a facilidade da internet, propaga-se com muito mais rapidez. O que assusta, porém, é o aumento de número de jovens que estão se engajando nesses tipos de desafios.
Muitos perguntam-se por que jovens que têm condições de vida boas, com bom nível socioeconômico e acesso a cultura arriscam suas vidas em uma atividade autodestrutiva. O erro é olhar apenas as condições externas das vidas desses jovens. Por fora, parece que têm tudo e nada falta, mas uma espiadela por dentro mostra um cenário diferente. A perspectiva com que olhamos o problema pode mudar completamente todo o sentido dele. E eles estão com falta de algo muito importante.
O que falta de fato na vida desses jovens são relacionamentos humanos de qualidade. Existe uma família, pessoas que moram juntas e é assim na maioria das casas, porém faltam elementos que unam essas pessoas. Relacionamento de qualidade é raro. Enquanto isso não for visto e transformado existirão cada vez mais desafios malucos.
Muita gente culpa os pais trabalharem tanto, que a família acabou e que até o feminismo que põe as mulheres no mercado de trabalho está destruindo valores. Bobagem! Não vamos voltar atrás no tempo e ficar saudosos de coisas que também não funcionavam muito bem. A questão não é os pais trabalharem e nem muita coisa na estrutura da família estar mudando atualmente, mas a qualidade dos relacionamentos entre as pessoas. Não se trata e nunca se tratou de quantidade de tempo e de manter tradição conservadora, mas de qualidade nas formas de se lidar um com o outro.
O problema é a ausência de contato. Só nos tornamos humanos quando nos relacionamos com os outros. Não nos tornamos humanos sozinhos. Aprendemos a nos cuidar quando primeiramente somos cuidados. Aprendemos a nos comunicar quando há gente que se comunica conosco. Sem contato humano nos tornamos vulneráveis. Se não nos tornamos humanos, teremos um corpo, sensações, mas não saberemos como preservar esse corpo, não teremos construídos uma identidade e ficaremos como bobos, pois não teremos consciência de nós mesmos.
Quando há relacionamento de qualidade aprendemos a nos preservar e a entender que temos uma responsabilidade por nós mesmos e, por isso, não aceitaremos qualquer convite. Na ausência de relações que nos ajudam a criar identidade, só sobra mesmo a busca por sensações, mesmo que estas nos coloquem em perigo. Apenas combater esses desafios não adiantará. É preciso um passo além e mais profundo. Sem repensar como nos relacionamos conosco e com os outros, sem desenvolver consciência, ficará aberto o ambiente para que loucuras desse tipo surjam. Que tal o desafio de nos tornarmos humanos melhores? Esse desafio vale a pena.
SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicoterapeuta em Londrina
Nova vida de um País se faz por meio de nova Constituição. É o do que precisamos. As reformas atuais começaram de modo maroto. Apelou-se à reforma trabalhista e previdenciária para dizer ao segmento mais culto do Brasil que esses são nossos principais problemas. Em verdade, a Lava Jato de todos os dias diz quais são nossos problemas principais. E a natureza desses problemas também deve ser enfrentada em dois campos: o político e o administrativo. A ênfase nas reformas trabalhista e previdenciária teve como motivo o desvio de foco. São os temas que menos atraem cogitações sobre a Lava Jato. Na guerra, o expediente leva o nome de "manobra diversionista". Com o acréscimo de angariar apoios para suas propostas favoráveis aos empresários no jogo natural da atividade econômica. Jeito tosco de escapar de um ciclone, posto que os empresários pagaram muito caro suas extorsões, inclusive com o próprio "status libertatis".
Estamos completamente falidos no plano político. O atual Executivo e o Legislativo não têm nenhuma credibilidade. O Judiciário acaba por protagonizar ou fazer as vezes de legislador positivo, no centro da tragédia. Visto que não é essa sua função constitucional, não demorará muito para que a zeladoria da Constituição se transforme num grupo de gendarmes de interesses. Os melhores já se vão, como se vê dos desejos de Celso de Mello e da Presidente Cármen Lúcia. Alexandre de Moraes veio pelas mãos de Temer, que pensa - diz ele - em reformas, mas sem nenhuma grandiosidade. Do contrário, teria iniciado no modo de indicar os Ministros do STF.
Reforma política é proibição de reeleições, em todos as instituições; voto distrital; "recall"; fim do foro por prerrogativa de função; parlamentarismo. Basta. Já é o suficiente para causar engulhos em todos os atuais parlamentares. Jamais será feita. Por isso não foi anunciada. Seria o suicídio de Temer. É preferível a morte do povo...
Reforma administrativa é administração estável, ágil e democrática. Mas, mais do que isso, ética. Aqui, urge mudar o regime de licitações. Não é preciso criar uma comissão de três no seio das empresas, que já começa seus trabalhos com um almoço na esquina. Se está em jogo a moralidade pública, as comissões devem ser compostas por uma membro da Magistratura, outro do Ministério Público e outro indicado pela OAB. Não há muito o que fazer, salvo os editais, a abertura dos envelopes e a proclamação do resultado. Obviamente, com os procedimentos respectivos, simples a esses especialistas. Em complemento, proibir-se o aditamento dos contratos. Se ajustado um preço a determinada obra, deve ser inalterável. Os aumentos, alguns estratosféricos, demonstram a farsa das concorrências, as propinas, as nulidades, o ilícito, tudo aquilo que causa arrepios ao bom povo brasileiro. E o pior: grande parte das obras permanece tristemente andrajosa.
A Constituição de 1988 foi um oásis. Todos estávamos sedentos. Democrática, todos bebemos de suas águas cidadãs. O passar do tempo demonstrou a necessidade de quase uma centena de dispositivos ser riscada por reformas constitucionais vindas desse Parlamento posto sob suspeita. Não se aboliram as medidas provisórias. Com elas vieram os contrabandos das diversas bancadas, que o Supremo, estranhamente, acolheu, ao firmar a tese da invalidade ex nunc, é dizer, somente depois de seus egrégios pronunciamentos. O passado, enlameado de corrupção, foi considerado válido. Uma nova Constituição que proíba a edição de medidas provisórias, salvo sobre estreitíssimos e especificados supostos, é absolutamente necessária.
A vida dos brasileiros de hoje e suas esperanças não segue. Sobrevive, com elevadas doses de Rivotril. Por isso propomos uma constituição autônoma, independente, sem os parlamentares atuais, efetivamente democrática ao refletir os anseios individuais e dos grupos sociais, é dizer, a vontade da qual emana o poder e em seu nome é exercido. Seguir-se-ão eleições, obstada a participação dos constituintes, que serão nossos homens capazes e dotados de boa vontade.
A proposta de novo pluralismo normativo toma fôlego. Esperamos que vença, porque é nosso único caminho.
AMADEU ROBERTO GARRIDO DE PAULA é Advogado e sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.
A Sexta República Brasileira inicialmente conhecida como Nova República iniciada na eleição de 1985, quando o oposicionista Tancredo Neves venceu Paulo Maluf, candidato dos militares, parece agonizar. Depois da aguda crise política e econômica que levou a presidente Dilma Rousseff ao impeachment, oito ministros do governo Temer, 24 senadores 39 deputados, ex-presidentes da República e governadores são investigados como beneficiários dos esquemas de corrupção delatados pelos executivos da Odebrecht. Outros ainda poderão ir para o mesmo caminho nas delações das demais empreiteiras e esquemas apurados na Operação Lava Jato. Tudo isso num país em profunda crise econômica e sob a ameaça de distúrbios decorrentes das reformas especialmente a trabalhista e a da previdência que o governo insiste em realizar sob a alegação de serem imprescindíveis. A grande dúvida está sobre a representatividade do atual Congresso e do próprio governo com tantos investigados.
Culpa-se hoje a Constituição de 1988 muito ampla, de mote parlamentarista e extremamente emendada, além de carente de regulamentações como motivadora de pelo menos parte da desordem em que vivemos. Os defensores de uma nova Constituição vêem na sua elaboração o meio mais adequado para reformar o Estado, montar um sistema político-eleitoral funcional e responder às distorções que hoje atrapalham a vida nacional. Congressistas e até membros do governo concordam com a convocação da Constituinte, divergindo apenas sobre detalhes, o que é normal.
A partir da queda do império, vivemos a Primeira República (1889-1930), a Era Vargas (1930-1945), o Nacional Desenvolvimentismo (1946-1964), o Regime Militar, hoje chamado ditadura (1964-1985) e a Sexta ou Nova Republica (de 1985 até hoje). Cada período teve suas dificuldades, crises, golpes e tentativas, endurecimentos e liberalidades que os conduziram ao fracasso. O Exército, que proclamou a República ao final do século 19, se fez presente na política até o final do regime de 1964 e depois se recolheu às suas funções. Hoje, com a falência da Sexta República, grupos pedem a sua volta.
O país vive um grave impasse. É o momento em que os brasileiros, especialmente os que detém algum tipo de liderança ou poder, se mobilizarem acima de ideologias, utopias e interesses próprios. É a hora de pensar no Brasil com toda sinceridade, e buscar o melhor para as futuras gerações. O ciclo vencido precisa, com a maior rapidez, ser substituído por um novo, que devolva a população as oportunidades, a ordem, a auto-estima e a perspectiva de melhores dias.
TENENTE DIRCEU CARDOSO GONÇALVES é dirigente da Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo
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