Espaço Aberto
Agricultura ligada à terra
Daniel Steidle
Neste Mundo moderno, onde a maioria das pessoas vive na cidade, ficou fácil comprar de tudo nas lojas. A agricultura, que se vê pela televisão, até parece uma indústria, mas há pessoas atrás disso. São famílias que rezam para chover ou parar de chover, que correm para plantar, cuidar e colher o "pão nosso de cada dia", que enfrentam políticas, balanços comerciais e muitos preconceitos... é sujeira, mosquito e uma vida sem badalação. O jeito rural, percebe-se pela música, comida e roupa, teve que se adaptar aos gostos modernos do povo da cidade e do além-mar. Tudo "country"! Tudo boné fazendo propaganda de maquinário e insumo estrangeiro... "É a "tar" da globalização" e tem gente da roça orgulhosa de alimentar o mundo em crescimento. Pior é quando a cidade quer se ver livre do seu lixo, de suas indústrias nocivas ou fazer mais um "depósito de gente". Aí, não tem perdão! É como nos tempos da colonização, de fazer os índios correr ou iludi-los com espelhos e miçangas. O agricultor, sempre em dificuldades, fica feliz da vida com a urbanização chegando, das terras valer o dobro, o triplo! Parece até prêmio de mega sena! Patrimônios, que foram abertos no machado pelo avô, onde cada palmo de terra foi tratado igual a um filho, onde geadas, pragas e doenças foram dribladas e onde cada centavo teve que ser economizado, agora se evaporam como numa noite de bebedeira. Valorizar, respeitar e repensar o papel da agricultura, antes de mais nada, é pagar uma dívida que temos com um segmento que a tudo construiu e continua mantendo.
Gostar da agricultura é gostar de si mesmo. Precisamos e somos comida, água, ar e terra! Os turistas, as escolas, os estudiosos e, principalmente, os mais velhos estão redescobrindo a roça junto com seus netos presos aos "aparelhinhos". Lembrar o passado rural, além de fazer lágrimas de saudades cair, é mostrar que dificuldades e pobreza foram os temperos ideais de juntar a família, de valorizar a terra e as sementes, de inventar brincadeiras com as coisas do mato, de cantar e dançar, de plantar e dividir, de ser realmente feliz e de agradecer, do coração a "força criadora" por tanta fartura e bênção!
Era o Paraíso na terra! Consertar o que sobrou deste Paraíso, tão cheio de problemas, mais do que nunca, vai depender de resgatar e promover essa "agricultura ligada à terra" ainda tão presente nas pequenas, médias e mesmo grandes propriedades rurais de nossa região. Que possamos simplesmente comemorar a vida, nos aproximar mais, esquecer um pouco das classificações e dos partidos e um aprender do outro, como se fôssemos todos crianças.
DANIEL STEIDLE é educador ambiental em Rolândia
Um mecanismo satânico
Walmor Maccarini
O jornalista José Padilha, do jornal "O Globo", escreve que na base do sistema político brasileiro opera um satânico mecanismo de exploração da sociedade, formado por quadrilhas de grandes fornecedores do Estado e políticos, nas esferas federal, estadual e municipal. No Executivo - ele diz - esse corrompido e perverso sistema funciona por via do superfaturamento de obras e serviços; e no Legislativo, por formulação de legislações que dão vantagens indevidas a grupos empresariais dispostos a pagar. O mecanismo existe à revelia de ideologia. Esta pode balizar políticas públicas mas só quando elas não interferem no funcionamento do mecanismo. Políticos que não aderem a ele e resistem à corrupção - declara o jornalista - recebem poucos recursos para suas campanhas, são eliminados do sistema e raramente se reelegem.
O mecanismo impõe barreiras para a entrada de pessoas inteligentes e honestas, posto que pessoas assim estão fora do ninho, e por isso inconvenientes - relata José Padilha, afirmando mais que a grande maioria dos políticos brasileiros tem baixo padrão moral e ético. Não se sabe se isto decorre em função do mecanismo ou se o mecanismo decorre disto. Um político pode apresentar projetos de mudanças desde que não coloquem em xeque o funcionamento do mecanismo; e se ele ousar, terá a maioria dos seus pares contra ele. Eficiência exagerada e transparência contrariam o mecanismo. Dessa forma, o Estado jamais deverá ser eficiente no controle dos gastos, porque um regime deficitário os beneficia. O mecanismo - por via do Poder Executivo - influi na indicação dos membros das cortes da Justiça - ele diz.
E mais, que apesar de mais de quinhentos parlamentares terem sido investigados desde 1998, a primeira condenação só ocorreu em 2010. A Operação Lava Jato - revela - só aconteceu "por uma bobeada do mecanismo" e foi cair nas mãos de uma rígida e competente equipe de juízes, procuradores e investigadores. Não é certeza - afirma - que a Operação vá promover o desmonte do mecanismo.
WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina
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