ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 06 de abril de 2017
Sylvio do Amaral Schreiner 
Vacas imaginárias
Sylvio do Amaral Schreiner
Uma história budista conta sobre um mestre que foi ao mercado com seus discípulos. Esse mestre era conhecido por ser um sábio e por usar corriqueiras situações como matéria para aprendizagem. Vendo um homem arrastando uma vaca ele o parou e chamou todos os discípulos ao redor e lhes fez a seguinte pergunta: "Quem está amarrado a quem? O homem à vaca ou a vaca ao homem?". Os discípulos pensaram e disseram que era claro a vaca estar atada ao homem, pois ele a arrastava, ele era o mestre e a vaca a escrava. O mestre sorriu, pegou uma tesoura, e cortou a corda entre o homem e a vaca. Nesse momento a vaca saiu em disparada fazendo com que o homem saísse correndo atrás dela. O mestre disse: "Agora a situação se inverteu e a vaca se tornou mestre. Vejam, o mesmo acontece com vocês e suas mentes. A vaca é as ilusões que vocês carregam aí dentro, mas são vocês que estão interessados nela, vocês se prendem a ela e quando ela se afasta vocês correm atrás dela. Isso causa doenças e deixa o espírito pesado. Porém, se vocês se desinteressarem de tudo aquilo que não precisa vocês serão livres e não precisarão ficar presos a nada".
É uma verdade dolorosa de se ouvir e de saber que muitas vezes nós ficamos presos e criamos muitas situações que nos adoecem por responsabilidade (ou falta dela) nossa. Frequentemente desenhamos cenários internos catastróficos e nos atamos a tantas coisas inúteis e irreais que passamos a viver as nossas criações e não a realidade. Estar constantemente ansioso, por exemplo, é ficar correndo atrás de várias vacas imaginárias.
O problema é quando passamos a tratar as vacas imaginadas como reais e nos distanciamos daquilo que realmente importa. A grande maioria das adversidades que padecemos é por nos envolvermos com nossas alucinações. Uma pessoa que sofre é uma pessoa aprisionada. A saúde mental requer liberdade e esta não vem gratuitamente, mas precisa ser conquistada. É um processo longo se livrar de algumas "vacas" e necessitamos de paciência, persistência e tolerância. O caminho para ser livre é árduo, contudo é o único que vale a pena trilhar.
SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicoterapeuta em Londrina
Julgamento da chapa Dilma-Temer
Gabriel Antunes da Silva
O ministro Herman Benjamin, relator do julgamento da chapa Dilma-Temer, foi enfático ao pedir aos demais ministros presentes no Plenário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não decidissem de modo a delongar ainda mais o caso que já dura 2 anos e 6 meses. Retardar a decisão seria permitir ao presidente Michel Temer terminar o mandato sem que o julgamento fosse encerrado, algo incompatível com a importância do feito e com os anseios sociais. Sem alcançar êxito no que esperava, o ministro viu o julgamento marcado para a última terça-feira ser adiado, por duas razões: ampliar de 48 horas para 5 dias o prazo dos advogados de defesa apresentar alegações finais; e ouvir os depoimentos do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e dos publicitários João Santana, Mônica Moura e de André Santana. A razão do adiamento do julgamento é em virtude de não terem sido obedecidos os procedimentos previstos em lei. A nosso ver, a Operação Lava Jato caminha em sentido idêntico. Ou seja, após inúmeras sentenças proferidas pelo juiz federal Sérgio Moro, estas serão submetidas ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região e, mais à frente, chegarão ao STF. Ao cidadão comum, municiado pelo noticiário, pode parecer que tudo corre bem nos processos dirigidos pelo referido juiz. Contudo, os advogados que comandam as defesas na Lava Jato já apontam inúmeras razões pelas quais os ministros do STF poderão anular as decisões provenientes da República de Curitiba, entre outras hipóteses que também são prejudiciais à Lava Jato. Pode-se exemplificar: decretação de prisões preventiva por longo período de tempo, supostamente utilizadas para coagir os réus presos a realizar delação premiada; parcialidade a um específico grupo político, mais à esquerda, em detrimento de outros políticos ligados ao partido derrotado nas eleições de 2014; interceptação telefônica em que a então presidente Dilma Rousseff era interlocutora; entre outros. A questão aqui não é sair em defesa dos réus da Lava Jato. Estes devem ser punidos severamente, dentro da lei, pelos crimes cometidos. O que se pretende demonstrar é que os ritos processuais, suas especificidades e ordem, são garantidos pela Constituição Federal e por ampla legislação e jurisprudência. Não atender a essas especificidades pode dar azo à impunidade, seja no julgamento da chapa Dilma-Temer, na Lava Jato ou Publicano, enfim, em qualquer julgamento criminal ou criminal-político.
GABRIEL ANTUNES DA SILVA é advogado em Londrina
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