Ter paz e ter razão

É preferível ter paz a ter razão. Talvez esse pensamento, simples, pode ser a diferença entre perder o tempo discutindo com alguém (que não sabe e nem quer ouvir) ou aproveitar os momentos para movimentar o universo a nosso favor – e fazer pequenas mudanças. Quem nunca se deparou com alguém que busca, por todas as vias, manter a razão, mesmo que isso implique em causar discórdia? E o pior: a razão que o outro tanto prega pode não ser verdadeiramente o melhor caminho, mas é o que ele acredita cegamente e quer fazer com que outros o apoiem. Talvez uma das grandes habilidades a se desenvolver é simplesmente "concordar" com quem não tem diálogo. Concordar da boca para fora, mas em nosso interior, continuar movimentando o universo por aquilo que acreditamos. Discussões cegas só criam neblinas nas possibilidades. Paralisam ações. Criam raízes nos pés de quem discute. Imobilizam feito uma teia pegajosa em busca de um inseto desatento. Vale a pena discutir com senhores da razão? Ou vale mais a pena consentir com a cabeça, virar o corpo e seguir o rumo fazendo o que precisa ser feito? Num mundo de convicções como vivemos, dá-se a impressão de que o diálogo, ou seja, aquela via de mão dupla, que constrói e aponta alternativas, parece uma peça de museu. Algumas pessoas têm tanta convicção no que falam, que se caírem dela, têm fratura exposta. Vale a pena dar a mão, ou melhor, os ouvidos a quem consequentemente quer te arrastar a essa queda? Por qual motivo se importar tanto em ter razão, quando a outra pessoa realmente não sabe ouvir o que você quer falar? Há discussões que realmente não valem a pena. Nos aprisionam, nos desgastam, nos inferiorizam, nos fazem sentir uma raiva desnecessária. Mas quem realmente permite que a água entre no barquinho de nossa vida somos nós mesmos. Com quem não quer dialogar, argumentar de nada vale. Por isso, é melhor ter paz a ter razão. Sorrie e acene. Deixe a pessoa com a convicção dela e siga adiante. Quem ganha é você.

JULIANO SCHIAVO é jornalista, escritor e biólogo


Poucas mudanças desde 64

Tudo o que veio acontecendo no Brasil de 31 de março de 1964 até os dias atuais demonstra que a turbulência política, a incompetência governamental, a sede de poder, a corrupção e a farra pública nunca cessaram. Muitos denominaram aquela intervenção das Forças Armadas como um golpe, mas hoje pode-se compreendê-la como um contragolpe, porque este, sim, estava sendo urdido pelas esquerdas de inspiração soviética. Estas já estavam no poder depois da renúncia de Jânio, mas queriam consolidar-se com um desfecho mortal contra as instituições e instalar um capitalismo de Estado dominador e - tudo indicando - sangrento. Certo é que a população aplaudiu a tomada do poder pelos militares, porque, com a posse do vice João Goulart (o Jango, do PTB), passou a vigorar no País um regime de temor e densa expectativa - porque Fidel, preposto de Moscou, já fuzilava adversários no "paredón" e os russos armaram Cuba e cercavam o mar do Caribe, certamente prontos para descer até o Brasil. Foi então que em 31 de março de 1964 os militares intervieram. O estopim foi o comício de poucas semanas antes na Avenida Presidente Vargas, no Rio, quando Jango - aplaudido pela militância petebista - fez um candente discurso conclamando à tomada das propriedades particulares e produtoras do País. Eram as Três Armas salvando a pátria, um procedimento idêntico que muitos pedem hoje, para destronar os políticos delinquentes que tomaram de assalto a nação brasileira. Com prisões, torturas, mortes, a ditadura militar perderia aí as estribeiras, mas deixou como legado a eliminação do domínio das esquerdas, o avanço das telecomunicações, a implantação da Usina de Itaipu e das usinas nucleares, a criação da Embrapa (que daria gigantesco impulso ao agronegócio), o advento da montadora Embraer, o início da construção da rodovia Transamazônica (inacabada), os metrôs de São Paulo e Rio. Enfim, ficamos salvos do perigo vermelho que já dominava meio mundo, mas viríamos a cair na desgraça atual da corrupção governamental, hoje a maior pestilência que assola o País.

WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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