Dia do Fornecedor
Mauricio Stainoff


Eis o mês do consumidor e o Código de Defesa do Consumidor já conta com 26 anos de vigência. Sabe quem mais ganhou com as relações consumeristas? Não, não foi o consumidor, foi o Estado e as diversas entidades que autuam ou possuem negócios que constrangem o varejista.

Foi na esteira do Código de Defesa do Consumidor que o Estado criou a Fundação Procon, o Inmetro, o Ipem; é na esteira do Código de Defesa do Consumidor que programas de televisão, o Proteste, ranking de empresas com maior número de reclamações, sites e outros tantos negócios privados faturam à margem da relação consumerista. O consumidor ganhou migalhas perto do que se ganha em faturamento com esse quinhão. A Fundação Procon possui convênios com incontáveis municípios no Brasil e só a municipalização do Procon do Estado de São Paulo atinge mais de 270 cidades. Nessa municipalização, o Procon treina e fomenta a fiscalização e autuação do fornecedor, no entanto, há uma etapa no seu processo de autuação para aferir a regularidade dos seus autos: é o Estado fiscalizando o Estado. A Fundação Procon disponibiliza na sua página da internet um rol de autuados (só os dez maiores autuados de São Paulo geraram R$ 2 bilhões em multas); em contrapartida, não se percebe a aplicação desse volume de autuações em políticas públicas em favor do consumidor. A percepção do varejo é de um órgão autuador e não de um órgão orientador. Os benefícios do Procon são incontestes para a dinâmica consumerista, mas o processamento dessa dinâmica é danosa para o varejo: processos centralizados, procedimentos caros, dificuldade de produção de provas, atendimento penalizado ao varejista. Ausentam-se do processo administrativo do Procon (Portaria 45 do Procon) mecanismos de conciliação e mecanismos de representação setorial do autuado, ou seja, não há ninguém representando o varejo na cadeia organizacional do Procon.

Mesmo fenômeno se repete do Ipem, um órgão que fatura milhões em multas mas que não aplica esse volume em educação consumerista, que possui um viés orientador, mas que na prática possui um processo caro, com pouca possibilidade de defesa do autuado e sem nenhuma representatividade setorial no processo de cobrança. O comerciante se sente refém desses órgãos e é duvidosa a percepção de satisfação dos consumidores, de forma que o Estado resume-se à cessão a instituições autuadoras em detrimento da necessária orientação. O Dia do Consumidor deve ser comemorado, mas bem que devíamos ter o dia do fornecedor.

MAURICIO STAINOFF é presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado de São Paulo




Poder das palavras
Walmor Maccarini


As palavras têm um atributo, uma personalidade, e irradiam o que está contido nelas. Tendo densidade e peso, elas estão identificadas com o estado mental de quem as pronuncia ou escreve. Com poder de propagação, essas emanações se aninham onde melhor encontram abrigo. As palavras proferidas com convicção expressam um sentimento e são carregadas de forte impulsão. Dependendo de sua qualidade, podem gerar uma atmosfera de paz onde semeadas ou turvar o ambiente, gerando mal-estar aos sensíveis. Faladas, escritas ou apenas pensadas, elas têm poder. Uma prece ou mensagem de louvor produzem efeitos benéficos e propagam essa corrente; e, quando em sentido contrário - uma blasfêmia, uma "praga rogada", como se diz -, atingem o alvo e geram consequências funestas.
Lendo ou ouvindo o que uma pessoa escreve e profere, pode-se saber seu nível mental e seu grau de evolução moral e espiritual, e é da boa política manter distância dela ou criar mentalmente uma barreira que isole essa vibração negativa, porque ela contagia. Deve haver os que se imaginam libertos ao valer-se publicamente das palavras pesadas e agressivas, mas isto denota dependência, uma espécie de viciosa necessidade. Suponho que desejem agredir, não se sabe a quem, mas talvez aquelas pessoas bem comportadas e comumente tachadas de moralistas ou de ideologia ou crença diferentes.
É aliviante revelar nossas amarguras aos confidentes, mas não se deveria fazer isso publicamente, sobretudo pelas redes sociais, como se fossem um "muro de lamentações". Da mesma forma, quanto menos falemos de doenças e males, nossos ou de outros, tanto melhor. Porque o resultado disto é que, quanto mais citamos algo ruim, mais o atraímos.
A frequente citação de uma coisa se corporifica, propaga-se e fica impregnada nas pessoas, como a fumaça do cigarro, que prejudica também os não-fumantes próximos. Pensamentos, sentimentos, palavras, são portadores de vigorosa força. Se não brincamos com armas, não devemos brincar com as palavras de conteúdo agressivo. Porque, além de atingir aos outros, o efeito delas retorna como uma bumerangue a quem as proferiu.

WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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