Opinião Atualizado em 24/03/2017, 19:37
ESPAÇO ABERTO
Recentemente, o colunista Luiz Geraldo Mazza (Política, 21/2) relembrou uma passagem curiosa de meu irmão Valmor Giavarina com respeito ao jogador Passarinho (ex-Coritiba). Mas o que pouca gente sabe é que Valmor se envolveu em algumas atribulações com o regime militar nos chamados anos de chumbo. Milton Ivan Heller e Maria de Los Angeles Duarte narram algumas dessas atribulações no livro "Memória de 1964 no Paraná".
Vou contar uma delas. Valmor foi prefeito de Apucarana de 1968 a 1972 e foi nessa época que o comandante do batalhão local, major Ricardo Ritter von Chelita, decidiu que não haveria Carnaval de rua na cidade. Valmor argumentou: "Existe Carnaval de rua de todo o País, por que não em Apucarana?". Ao que o major retrucou: "Isso é problema meu. Carnaval só em clube". "Tudo bem", disse meu irmão. "Então, o senhor me manda um ofício, que eu terei que divulgar dizendo que por determinação do Exército não teremos Carnaval de rua em Apucarana." O major, já enfurecido, respondeu: "Não vou oficiar. O senhor já está avisado, e se houver Carnaval de rua, o senhor será preso".
Dois dias depois, saiu um bloco com a banda de música da cidade com Giavarina na frente de bermuda. Chelita mandou fotografar tudo e convocou os vereadores para uma reunião no quartel do 30º Batalhão de Infantaria Motorizada (BIM), dizendo que o prefeito faltou com o decoro parlamentar: "Exijo o impeachment ou vou providenciar a cassação de todos vocês". O vereador Lino Garcia avisou Valmor que o major estava decidido a liquidá-lo politicamente. O prefeito e a comissão executiva da Câmara resolveram ir à casa de Chelita.
"O que há?", perguntou meu irmão. "A verdade é que o senhor faltou com o decoro parlamentar", disse o major. Achando aquilo tudo um absurdo, Giavarina foi a Curitiba, solicitou uma audiência ao comandante da 5ª Região Militar, general José Campos de Aragão, e relatou tudo: "Nesse clima não é possível administrar a cidade. Então, o senhor fique com as chaves da prefeitura". O general não quis acreditar no que ouvia. Mandou investigar e imediatamente providenciou a transferência do major Chelita. Essa foi uma das atribulações de Valmor Giavarina durante a ditadura militar, que não foram poucas.
SERGIO GIAVARINA é professor em Jataizinho
"Você só tem uma chance!" O que você preferiria, morrer na cruz ou a morte por golpe de espada? Nos tempos atuais, é remota a possibilidade de uma pessoa morrer crucificada ou golpeada por uma espada. Porém, essa expressão popular pode ser aplicada a vários cenários de nossa vida. Ela revela a sabedoria de que, muitas vezes, nos deparamos com situações em que todas as alternativas não são muito boas.
Exemplifico. Diante de uma senhora, acompanhada de uma criança, pedindo esmolas dentro do estacionamento de um mercado privado, fiz a seguinte reflexão: se por um lado eu der esmola, vou contribuir para que ela continue neste local pedindo, e ainda poderei fomentar outros pedintes a se direcionarem ao mesmo estacionamento. Isso pode ser visto como uma decisão racional (razão).
De outro lado, posso ajudar a senhora com um quilo de alimento para que possa preparar para si e seus familiares ao chegar em casa (se é que ela tem uma). Essa seria uma decisão misericordiosa (emocional).
Particularmente, sempre preferi ajudar instituições filantrópicas a dar esmolas na rua, com o fim de evitar a proliferação de pedintes pelas ruas (razão). Entretanto, nos últimos tempos tenho cedido ao emocional e, muitas vezes, até tomado a iniciativa de dar a esmola, ou mesmo elogiado quem faz o mesmo.
Voltando ao caso da senhora na porta do supermercado, diante do impasse em ajudar ou não, pensei: se Jesus estive no meu lugar, como Ele decidiria? Será que Jesus seria racional ou misericordioso? Não tive dúvida, "entre a razão e o coração", Jesus ajudaria. Foi o que fiz, doei um pacote de biscoito.
Contudo, poderá perguntar o leitor: e a razão, onde fica? Deus tem uma lógica própria para os que são misericordiosos.
TARCISIO TEIXEIRA é professor da Universidade Estadual de Londrina
Após muita pressão e mobilização, o texto da Medida Provisória 746 da reforma do ensino médio foi reformulado, mantendo a obrigatoriedade dos conteúdos de Filosofia e Sociologia como "estudos e práticas" na Base Nacional Curricular Comum. Uma conquista importante, mas o texto aprovado anuncia que outras batalhas ainda serão travadas. O modo difuso e controverso que fala em "estudos e práticas", traz o risco de se descaracterizar as disciplinas de Filosofia e Sociologia, barateando e precarizando áreas que exigem formação profissional qualificada e constituída por sólidos estudos acadêmicos.
Há que se considerar todo o histórico de polêmicas que marcam a trajetória da Filosofia e da Sociologia na história da educação brasileira. Por se tratar de conteúdos que estimulam o questionamento e a reflexão, por vezes eles são considerados "inúteis" ou "subversivos". Em muitos momentos os profissionais da área foram desqualificados, considerados doutrinadores que fazem a cabeça dos alunos. Ora, tal infâmia subestima a capacidade reflexiva dos alunos, e contraria a essência dessas disciplinas: o diálogo, a pesquisa e a análise de dados e ideias. Debate e análise, não imposição de ideologias.
Parece apropriado questionar por que grandes potências econômicas mundiais, com grandes empresas multinacionais também contaram e contam com grandes pensadores. Grandes projetos demandam grandes ideias e grandes pensadores. Mas será que precisaremos importá-los? Grandes redes privadas de ensino têm adotado o ensino da Filosofia já nas primeiras etapas da educação básica e colhem bons frutos, com alunos críticos, participativos, com capacidade de argumentação, boa redação e liderança. Benefícios que podem ser estendidos aos estudantes das escolas públicas de todo Brasil, conjugando formação humana e investimentos nas escolas.
Por que adotar novamente uma receita que não deu certo? Afastar o questionamento e a reflexão crítica da escola só piorou as coisas. As demandas por estudantes criativos e empreendedores dependem de se criar um clima educacional que estimule o livre pensar, que possibilite interrogar valores, crenças e símbolos, alguns já fossilizados e nocivos para uma vida de sustentabilidade. Talvez, muitos dos problemas da educação nacional não sejam em parte, consequência daquilo que estava no currículo, mas justamente da sua ausência.
EVERSON NAUROSKI E LUIS FERNANDO LOPES são pesquisadores na área da Educação e professores nos cursos de Filosofia, Sociologia e Pedagogia do Centro Universitário Internacional Uninter
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