O combate à pichação

A cruzada que o prefeito de São Paulo, João Dória Jr (PSDB) iniciou contra as pichações pode ser o começo de um movimento nacional para o desemporcalhamento da paisagem em todos os quadrantes. O rabiscar das paredes e muros, antes usados para fins de luta política, tornou-se lazer. Verdadeiras gangues se formaram para cometer a transgressão que polui o visual e causa grandes prejuízos ao patrimônio público e privado.

A prática tornou-se, com o passar do tempo, uma disputa onde seus adeptos procuram deixar suas marcas em locais de difícil acesso, como o alto das construções. Isso já custou a saúde e até a vida de muitos deles, que acabaram sofrendo grandes quedas. Síndicos, administradores e até as polícias tentaram combater as pichações. Mas o falso conceito de liberdade criado e ainda vigente em nosso país tornou a tarefa inviável, pois nem os crimes de maior potencial têm recebido punição.

O resultado é a pichação por todos os lados e até a formação corporativa dos pichadores, que reivindicam a condição social de artistas. A eles juntam-se os ativistas da liberdade anárquica e não há imóvel que permaneça nas condições em que foi concebido. A ação da Prefeitura de São Paulo, lastreada nas posturas municipais, é algo novo. Principalmente quando faz distinção entre o que é pichação e o que é arte e sua conservação, e se dispõe a criar espaços onde os artistas possam desenvolver sua atividade e contribuir com o embelezamento sem agredir a arquitetura urbana.

O prefeito adotou essa diretriz e promete ação policial sobre os que insistirem em continuar pichando. Mais do que isso, seria importante tentar a conscientização e reservar o uso da força só se o caminho do entendimento se mostrasse inviável.

É preciso chamar a atenção para a conservação ambiental, inclusive das fachadas dos imóveis públicos e privados e acabar com o lixo a elas agregado por lazer, rebeldia ou qualquer tipo de sentimento ou ativismo. As pichações – a maioria delas grotescas – existem em praticamente todas as cidades brasileiras. São frutos do período da liberdade sem responsabilidade que, de certa forma, nos trouxe ao caos hoje vivido. Uma das reformas cabíveis dentro da obra de reconstrução nacional que hoje se ensaia, deve ser a de conscientizar a população e os pichadores e fazer com que mudem a postura para, em vez de agredir a paisagem urbana, passar a preservá-la em favor da salubridade do ambiente em que vivemos.

DIRCEU CARDOSO GONÇALVES é dirigente da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo




Quando nos desviamos da rota

Todos estamos neste planeta para realizar a obra conjunta de melhoria da humanidade e evoluirmos juntos. Mesmo nas maldades humanas reside um germe de evolução, embora por esse meio a caminhada seja mais longa e espinhosa. Muitos evoluem no sofrimento, outros se revoltam nessa situação, mas de qualquer modo nada ocorre em vão. Há os que crescem e só encontram a libertação interior quando trancafiados nas prisões. Porque, no mais dos casos, em tal situação cessam de delinquir e de causar danos a si mesmos e a outros. Diria que até nisso reside a misericórdia divina, tão incompreendida. Estes são os meios de contenção para muitos, que só dessa forma se conscientizam e evoluem.

Nada é mais penoso que o cerceamento das liberdades - de mover-se, de ouvir e ser ouvido, de agir, de poder ver e sentir, de conviver com os demais, mas é nessa incômoda situação que pode sobrar tempo para a reflexão. Esta custa mais a ocorrer quando os sentidos estiveram voltados para a busca dos desfrutes mundanos a qualquer preço, mesmo prejudicando a muitos; para a apropriação de bens que não nos pertenciam, em desprezo pela missão que nos estava confiada - sobretudo quando de relevante função pública e de decisões e induções que afetam a muitos.

Todos nos encontramos aqui para executar um grande projeto pela causa evolucionária pessoal e dos que nos cercam e também pela causa deste planeta, porque também este pulsa vida e sofre se é tangido, e por isso reage com idêntica violência. Estamos debaixo do mesmo sol e somos irmanados à Terra, aos animais, às plantas, às águas, ao ar - por isso temos de conviver em harmonia com tudo o que nos cerca e com o que nossos olhares alcançam. Mas na luta entre nossa essência e o ego inferior, este muitas vezes triunfa.

É pelo livre-arbítrio que cada indivíduo elege uma tarefa, galga degraus de poder, e se perde o equilíbrio por negligência sofre o impacto da queda na proporção da altura que subiu, além de causar grandes danos. É desalentador para todos nós, parceiros nesta jornada, ver que tantos sucumbem ao desviar-se das obrigações que tinham, para aqui cumprir, e dos propósitos que estabeleceram antes de aportar nesta missão terrena. A triste consequência é que, ao perder o rumo, têm de retornar ao princípio da caminhada.

WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

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