'Maria'



Enquanto aguardava atendimento na sala de espera de um hospital, uma menina sentou ao meu lado e ficou olhando para um livro que estava em minhas mãos. Ela me perguntou que livro era aquele, imediatamente eu virei a capa para sua direção para que ela lesse o título. Para minha surpresa, ela me disse que não sabia ler, que só conhecia as letras. Fiquei assustado com a resposta e de imediato perguntei quantos anos ela tinha e se ela estava em uma escola. Ela me disse que tinha nove anos e que estava estudando. Conversamos um pouco e durante nossa conversa mostrei as letras da capa do livro, ela identificou todas as letras: N, O, T, A, S, D, O, S, U, B, S, O, L, O. Maria me disse que estava no hospital porque sua mãe estava internada. Fiquei tão assustado com o fato dela não saber ler, que nem me preocupei em perguntar o que a mãe dela tinha e se ela estava sozinha no hospital.
Maria me colocou de frente com a nossa triste realidade cotidiana. Passamos nossos dias discutindo, se Fidel Castro é herói ou tirano, se o Reino Unido deve ou não permanecer na União Europeia, se a Hillary é melhor que o Trump, se o aborto deve ou não ser legalizado. Emitimos e compartilhamos opiniões e soluções sobre os mais diversos tipos de assunto e problemas. Enquanto isso, Maria passa a vida sentada em uma sala de aula identificando as letras sem conseguir dar o devido significado às palavras.
A minha conversa com a menina me fez levantar a questão: que responsabilidade eu tenho com a pequena Maria? Na verdade, sou um cidadão de bem, pago os meus impostos e estou cheio de problemas para resolver. Tenho muitas contas para pagar. Além disso, sou professor universitário, devo me preocupar com os meus alunos que são todos adultos. O que eu tenho a ver com o ensino das crianças? Pensando bem, a Maria não deve estar se esforçando bastante e é bem provável que falte meritocracia para ela juntar as letras e fazer com que elas tomem significado. Tento me convencer do contrário, mas ao que me parece Dostoiévski foi assertivo em sua descrição da natureza humana.

PAULO JOSÉ DOS REIS é doutor em Física e professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste em Guarapuava.




A purificadora comoção popular



A gigantesca onda de comoção popular, resultante das tragédias que ceifam vidas humanas, gera simultaneamente uma poderosa corrente vibracional de união e compaixão, envolvendo toda a humanidade. É uma vigorosa força que emana da alma e se expressa pelos sentimentos mais profundos, pelas orações e pelas lágrimas derramadas. Essa benfazeja vibração, manifestada a um só tempo em torno de uma mesma causa, processa uma purificação dos corações e mentes e do ambiente terreno, e é sentida também nos planos mais elevados. O universo é sincrônico, e as camadas exteriores que têm relação mais estreita com nosso planeta também vivenciam os eventos que aqui ocorrem, e interagem com eles.

Vítimas, familiares e amigos sofrem penosamente, e essa dor compartilhada incondicionalmente por milhões de pessoas - caso do presente episódio do acidente aéreo com brasileiros na Colômbia - propaga-se com intensidade e unifica todas as pessoas num igual sentimento, promovendo fantásticas curas da alma. Porque limpa o campo da atmosfera terrestre e elimina camadas densas que vieram se acumulando pelas vibrações inqualificadas do inconsciente das massas. Nos nossos dias, em segundos toda a comunidade mundial toma ciência dos fatos e é por eles envolvida, e quando coirmãos são tangidos, de qualquer ponto de nossa aldeia global, fazem-na prostrar-se em idêntica dor e reverência.

As preces, a solidariedade e os anseios de ajuda, são revelações do quanto os corações humanos guardam de amor fraternal em seu âmago. As virtudes então afloram, espontaneamente, inundando toda a atmosfera terrena. Nessa dimensão de existência passageira em que nos encontramos, nada ocorre de modo fortuito. Deus certamente está sempre presente no palco dos acontecimentos e sabe por que as coisas devem acontecer, dolorosas que sejam. Buscar respostas conclusivas à luz do nosso curto entendimento é penetrar no nebuloso campo do desconhecido. Grandes dores são também momentos de grande purificação e despertar de consciências.


WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina.

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