ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de julho de 2016
Roberto Bueno 
O neoliberalismo tripudia grave e seriamente ao desmerecer o valor da equidade nas relações humanas e na organização do Estado. Desconsidera o impacto positivo do combate à radical iniquidade que campeia no Brasil, encarnada na pornográfica desigualdade patrocinada pela ideologia neoliberal-conservadora à direita sempre disposta a aprofundá-la, tal e como está sendo confirmado na prática pelos sedentos fiadores do poder.
O fato é que a desigualdade fere de morte o apreço popular pela democracia, mas o radicalismo neoliberal à direita não se importa com isto porque não considera nenhuma delas um valor. Apoiar a democracia e enfrentar a desigualdade são apenas grandezas residuais a realizar quando compatíveis com os cálculos dos industriais e do grande capital que sustenta o sistema. Portanto, a disfuncionalidade da desigualdade para a democracia não interessa ao neoliberalismo radical, pois ela não é instrumento necessário para as suas finalidades.
Neste cenário, a elite conservadora à direita não tem qualquer interesse em realizar a reforma tributária, pois ela representa o 1% da população brasileira detentora de enorme faixa da renda nacional e, reflexo imediato, de infinita capacidade de influenciar e determinar os rumos dos assuntos públicos. A reforma é pedra angular para que se realize a justiça tributária no Brasil e, por conseguinte, os esforços em prol da democracia, que são de difícil consecução quando a elite financeira revela todo o seu desprezo por ela.
O desprezo pelo bem-estar das massas se explica na composição do conservadorismo radical, cuja mente não é habitada pela razão prático-libertária e o pulso não sente além da tensão impositiva. Seu ethos desconhece a solidariedade, e assim é irrelevante que os índices de desigualdade atinjam o píncaro da degradação humana: não o constrange algo que faria corar ainda ao mais experiente diretor de filmes "d" dos tempos áureos da Boca do Lixo paulistana. Não há constrangimento em manter sistema em que se tributa demais o consumo e muito pouco a renda da elite financeira.
A lógica da preservação do autointeresse a qualquer custo explica a proteção da concentração de renda pela elite que, assim, aumenta o seu poder e os seus benefícios. Para desarmar a perpetuação da injustiça, é necessária a repactuação tributária que consagre imposição fortemente progressiva para financiar investimentos em saúde, serviços públicos e educação. Mas, se capital é poder, por qual motivo a elite apoiaria mudanças?
A resistência da opinião pública a compreender a matéria é devida à massiva campanha de detração da social-democracia, juquirianamente equiparada ao comunismo pelo radicalismo à direita. Falácia-mor. Democracias bem assentadas admitem como absolutamente justo que as suas elites paguem proporcionalmente mais tributos do que os menos aquinhoados. O social-democrata só propõe um Estado de bem-estar, cujo vetor são os países nórdicos europeus que os neoliberais tupiniquins folgam elogiar. O grave problema que perpassa o pensar à direita radical é a sua mescla de raquitismo filosófico ingênito e a defesa de interesses econômicos inconfessáveis. Pautam a sua gramática política pela tentativa de convencimento de que oferecer postos de saúde e educação decentes para a população com financiamento prioritário das classes abastadas é ser comunista. Desserviço. E isto não é opinião, é conceito. Não podemos admitir golpe deste tipo.
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