ESPAÇO ABERTO
Durante longo período da História Antiga e que se estendeu até a Idade Média, era comum o emprego da ordália, ou seja, um rito especial empregado para julgar criminosos. Através dele a vida do julgado era entregue ao crivo de uma força natural, um deus, que poderia puni-lo com a morte ou absolvê-lo, conforme fosse o caso. Na verdade, era considerado um ato voluntário do próprio julgado, pois lhe era dado a chance de confessar todos os seus crimes para livrar-se de uma sentença fatídica. Por essa característica, a ordália era considerada uma opção pelo risco, uma forma de suicídio.
Estudiosos associam essa prática às manifestações do inconsciente coletivo, isto é, pertencente à memória universal e que por isso se repete através das gerações. Quem a pratica não tem consciência de que opta por uma forma de sofrimento pessoal e cumpre-a em si mesmo para atingir a plenitude do funcionamento. Em algumas culturas tribais foi institucionalizada através dos ritos de passagens nos quais o candidato a guerreiro era submetido a provas terríveis, como atirar-se de penhascos preso por cipós aos pés, passar noites sozinho na escuridão da floresta, ser ferroado por insetos peçonhentos e arder de febre durante dias - por exemplo. Se sobrevivessem, era porque teriam recebido a aprovação dos deuses, assim como no julgamento ordálico.
Pela ótica de David Le Breton, professor de Sociologia e Antropologia da Universidade de Strasbourg, a delinquência juvenil é a edição moderna desse rito. Aliás, as retaliações pela sociedade, o estigma de "marginal", a punição legal e outras formas intimidativas aguçam essa necessidade, funcionando como um rito de passagem moderno, que agora se institucionaliza exatamente na medida em que impõe castigos e provas a serem cumpridas para que se possa ascender socialmente. Nessa versão moderna, porém, permite-se ao candidato escolher a forma pela qual deseja buscar o sofrimento, a dor e o medo (uso de drogas, brigas, esportes radicais, prática de delitos, etc.), ingredientes necessários para provar suas capacidades e testar seus limites, liberdade e autonomia.
Há mais de vinte anos acompanhando e dedicando minha atenção profissional a dependentes químicos, muitos dos quais iniciados na faixa etária entre 12 e 18, tenho constatado na prática a veracidade desse fenômeno através das inconsistentes justificativas apresentadas para o início dessa conduta arriscada. São afirmações mais ou menos assim: "Ué, é normal. A gente usa... se quebrar a cara, quebrou. Dá nada não!".
Como destaca Breton, através dessa "ordália moderna" os jovens "...interrogam simbolicamente a morte para saber se vale a pena viver." Em suma, brincar com o perigo revela a necessidade intensificar a própria existência. É gritar para o mundo e expressar o mal-estar pelas rupturas que evidenciam a disfuncionalidade das relações socioafetivas, especialmente as familiares. Nada faz muito sentido nesse encapsulamento em que a vida parece ficar suspensa pela dicotomia que espreme o púbere entre o mundo fantástico e protegido da criança e o amedrontador mundo desconhecido do adulto. Jogar com o perigo faz precipitar as endorfinas no cérebro, estimulando ou relaxando, modificando as percepções, enfim, devolvendo ao jogador uma ilusória completude de si.
Afinal, ser adolescente nunca foi fácil. Aristóteles, no século IV a.C. já os descrevia como apaixonados, irascíveis e incapazes de controlarem seus impulsos.
Apenas a tecnologia mudou no entorno deles.
JAIR QUEIROZ é psicólogo clínico e pós-graduado em Segurança Pública em Londrina
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