ESPAÇO ABERTO
A reportagem "Guarda responsável para reduzir superpopulação de animais" (Cidades, 9/6) abordou assuntos como a superpopulação dos animais domésticos (cães e gatos) em Londrina, benefícios da castração deles, bem como problemas culturais da população em relação aos cuidados com esses animais. Consideramos o trabalho desenvolvido pela Prefeitura de Londrina juntamente com os colaboradores Universidade Estadual de Londrina (UEL), Unifil, Unopar e ONG SOS Vida Animal interessante e pertinente. No entanto, gostaríamos de acrescentar algumas questões ambientais envolvidas, principalmente relacionadas aos danos ambientais acarretados pela superpopulação de cães e gatos.
Segundo a World Society for the Protection of Animals (WSPA), os cuidados com a saúde animal estão inseridos no contexto da posse responsável e incluem cuidados com a alimentação, higiene, companhia, exercícios e acompanhamento médico veterinário. O maior problema, quando se trata de posse responsável, é que os guardiões estão desinformados e desatentos em relação à responsabilidade, aos cuidados necessários e aos riscos da posse de um animal de estimação, muitos desconhecem o significado de zoonoses e não compreendem os perigos de deixar seus animais transitando livremente.
Os animais domésticos que se ausentam de suas casas para dar as conhecidas "voltinhas" ou até mesmo os que são abandonados e adquirem hábitos errantes, podem transitar livremente pelas ruas, fundos de vale e fragmentos florestais representando um importante dispersor de parasitas e doenças. Esses animais podem oferecer risco à população pelo potencial de transmissão de zoonoses. Porém, é importante ressaltar que o fluxo inverso também é verdadeiro e possível de acontecer. Sendo assim, esses animais representam um risco considerável para os animais silvestres associados a esses poucos refúgios remanescentes na cidade.
As espécies silvestres vêm sofrendo diferentes tipos de distúrbios decorrentes da superpopulação desses animais. Já é comprovado que gatos domésticos ou asselvajados provocam importante impacto na população de pássaros silvestres em diversas áreas pelo mundo, além do fato de serem dispersores em potencial de algumas doenças infecciosas como: toxoplasmose, sarcosporidiose e raiva.
Estudos recentes têm demonstrado o potencial de impacto representado pelos cães domésticos ou abandonados, principalmente quando vivem em locais próximos aos fundos de vale ou importantes remanescentes florestais próximos às cidades (parques, bosques, etc.) com condições de abrigar algumas espécies nativas. A lista de animais silvestres que são atacados por esses cães pode variar de pequenos anfíbios (sapos), répteis (lagartos) e aves a alguns mamíferos de médio porte (tatus, macacos, veados, tapitis, preás, pacas e porcos espinho).
Apesar dos estudos a esse respeito ainda serem escassos aqui no Brasil, países como Austrália, Nova Zelândia, Espanha, Inglaterra, Canadá, EUA, Equador (Ilhas Galápagos) já estudam o impacto representado por animais domésticos à fauna nativa há várias décadas e os resultados são surpreendentes, sendo um único gato ou cachorro capaz de dizimar a população de determinadas aves ou pequenos mamíferos que viviam em uma determinada ilha.
Nesses países as medidas de controle populacional de animais domésticos são variadas, envolvendo desde campanhas de castração a abates coletivos. Debates envolvendo o tema sempre geram discussões acaloradas, porém há um consenso: nossos companheiros de quatro patas sempre pagam pelas irresponsabilidades cometidas por nós seres humanos.
ARMANDO CESAR RODRIGUES CASIMIRO e MARINA WELTER NASCIMENTO são biólogos do Laboratório de Ecologia de Peixes e Invasões Biológicas na Universidade Estadual de Londrina
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