O que é ser de esquerda hoje é uma pergunta extremamente atual que requer questionamentos conexos sobre quais são os seus valores, as suas políticas e suas prioridades. Ser de esquerda hoje é defender intensamente a democrática Constituição Federal de 1988, estabelecendo linhas de força e resistência contra a cultura política da pura força e sua projeção autoritária nas instituições.

É preciso avançar, empreender esforços para realizar a justiça social. A esquerda reclama a defesa da realização dos direitos trabalhistas das classes menos privilegiadas, da igualdade perante a lei, da viabilização das perspectivas existenciais plurais, da igualdade de acesso a bens básicos como a saúde, a educação e a segurança.

A justiça social se realiza na distribuição equitativa de bens e reconhecimento social, e o nível de desigualdade e indiferença quanto a distribuição destes valores é vetor expressivo do grau de injustiça social observável. A direita não crê na justiça social, mas apenas o nível mínimo de legitimação política conjugado com a imposição da coerção estatal em seu máximo aceitável para manter a operacionalidade do poder.

O desafio da esquerda contemporânea é transcender a interpretação do bem-estar enquanto mera disposição de bens materiais e passar a compreender a libertação pela via da instrução existencial, o que é abordagem situada para mais além do que a crença no potencial do Iluminismo. O desafio é reelaborar o discurso filosófico priorizando a emancipação a partir da análise ampliada da existência humana para mais além das aquisições materiais, e sim pela reaquisição de sua inserção no tempo. Se o bem-estar material é pressuposto para a vida o é em escala modesta, e a própria noção de bem-estar precisa avançar para a recriação do imaginário humano, pois é ali reside a diferença que nos potencializa e seduz enquanto criaturas em contínua interação.

A pobreza discursiva da direita reside em relegar o homem às suas condições naturais. Pressupõe, com Hayek, que não há justiça nem injustiça na natureza, e que o justo consistiria em não interferir nos resultados que ela produzisse. Mesmo que Hayek tivesse razão, eis que a sociedade não é produto da natureza, senão resultado da construção humana, e por cultural, então, ela pode ser injusta, e merecedora de reelaborações para concretizar a justiça social.


A esquerda congruente precisa rechaçar o autoritarismo e a cultura do arbítrio. A esquerda democrática diz não à força bruta como elemento constitutivo da vida política, resiste ao avanço do ódio como método da política. Estar à esquerda é resistir a partir das trincheiras do republicanismo contra o avanço da cultura fascista.

O conjunto de desafios da esquerda implica retomar a tradição humanista, e para tanto avançar para mais além da mera retórica. Muros caídos, o real da vida permanece, e nele os homens mantêm sua pretensão ao cego domínio de seus concidadãos através da mediação do metal.

A esquerda precisa desmistificar o real e explicitar as relações de poder, função que a direita não somente se omite de realizar como aprofunda a sua obscuridade. Inversamente à direita, a esquerda mantém sua irresignação em face da precariedade da ordem sociopolítica que coordena a existência humana. O contato com o real da vida e a conseguinte legitimação política da esquerda advém da promoção da redistribuição equânime de bens sociais básicos. É uma decisão política o que está em causa.

ROBERTO BUENO é professor pós-doutor em Direito do Centro de Estudos Avançados sobre a Democracia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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