ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Gabriel Lima Lopes 
A Oncologia, como especialidade médica, sempre carregou grandes estigmas e mitos que acompanham pacientes e familiares durante a sua longa (e, de fato, às vezes penosa) jornada. Entretanto, estamos vivendo uma era de progressos reais com advento de novas descobertas desses últimos 20 anos de pesquisa. Os desafios encontrados pelo Oncologista em sua rotina são enormes, confrontam o médico diariamente. Compreender que "câncer" é um termo médico que se refere a uma centena de doenças com apresentações clínicas semelhantes, porém de biologias distintas, torna-se algo novo não só para a população leiga, mas para os próprios especialistas. É importante frisar que lidamos com diferentes patologias que não devem ser confundidas; comparar câncer de rim e câncer de pulmão seria como comparar hipertensão arterial e diabetes: notavelmente são doenças de evolução e tratamento diferentes. Entendendo isso, fica mais fácil compreender como não há uma regra em relação aos sintomas que podem aparecer no curso da doença. Além disso, muitas vezes o crescimento do tumor ocorre de forma sutil e silenciosa, o que dificulta a suspeição diagnóstica tanto pelo doente quanto pelo médico. Mas será que estamos lidando realmente com uma série de doenças heterogêneas ou a diversidade dos seres humanos portadores dessa condição é o que torna o desafio tão grande? O médico hoje consegue de fato dimensionar a dor e o sofrimento cotidianos de seus pacientes e familiares? A abordagem estritamente científica ainda deve ser tão soberana frente a um atendimento mais humanizado, quando as pessoas se encontram tão fragilizadas pelo diagnóstico e tratamento requeridos nesse contexto? Ao contrário do que se imagina, a maioria dos casos atendidos no consultório por oncologistas clínicos e cirurgiões são casos com potencial de cura com o tratamento correto, como os cânceres de mama, intestino e próstata. É claro que ainda convivemos com limitações em alcançar a cura para muitos pacientes diagnosticados com doenças avançadas, mas é notório que esse panorama vem sofrendo mudanças recentes. O conhecimento médico tradicionalmente se fundamenta em números e em estatística de grandes estudos clínicos, mas a verdade cada vez mais absoluta em Oncologia é que, de fato, cada caso é realmente único; faz muita diferença estar com um médico especialista no assunto para a correta individualização de cada decisão a ser tomada. Quando a cura é possível, logicamente esse deve ser o nosso principal objetivo ao se oferecer técnicas de tratamento radical, que podem envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia convencional ou terapias mais modernas (as chamadas terapias-alvo e a imunoterapia). Porém, quando o paciente possui uma doença incurável, o objetivo do médico sempre deve se pautar em garantir um adequado controle do crescimento tumoral (atingindo ganhos em sobrevida). Entretanto, sem nunca esquecer que a prioridade de suas condutas é a preservação da autonomia e da qualidade de vida do paciente. Em ambos os cenários, é muito importante que se estabeleça um forte laço de confiança entre paciente-família-oncologista, pois obviamente nos deparamos com situações muito delicadas que envolvem uma mistura de expectativas e emoções, e ainda hoje geram grande angústia a todos que fazem parte desse "círculo de cuidado". Atentar-se às decisões de forma personalizada é crucial para manter o foco no maior compromisso que firmamos como médicos: o cuidado diário com o nosso paciente. Contando com uma equipe comprometida, onde devem fazer parte outros profissionais indispensáveis (enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, dentistas, nutricionistas e psicólogos), um oncologista "bem treinado" vem sendo capaz de melhorar a antiga, e triste, estatística dessa doença, porém é fundamental que compreendamos como sociedade que uma formação exclusivamente técnica já não basta para suprir todas essas demandas físicas e emocionais: é preciso também focar numa formação mais humanitária, ainda temos muito a melhorar.
GABRIEL LIMA LOPES é oncologista e professor de Oncologia do curso de Medicina da PUC Londrina
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