ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de junho de 2016
Thiago Leibante 
Vivemos um momento histórico bastante preocupante no que tange às iniciativas do tipo "Escola sem partido", "Escola livre" e outras do gênero, que têm conquistado espaço de fala nas mídias e que têm sido propostas na forma de projetos de lei por partidos de orientação mais conservadora.
O argumento dos referidos projetos de lei, de modo resumido, é o de que é comum a prática de doutrinação ideológica por parte de professores de todo o país. Parte-se do pressuposto de que os alunos estariam sujeitos a uma espécie de assédio ideológico-político por parte dos docentes, e assim, por conta dessa condição, seriam levados a adotar posicionamentos radicais que convergem com ideologias de esquerda.
No Paraná, o movimento do "Escola sem partido" passou a se expressar de modo mais contundente no período da greve da rede estadual no início de 2015, e que culminou com o famigerado massacre dos professores na capital do Estado. Seria apenas uma coincidência ou os fatos têm ligação?
Seria muita ingenuidade imaginarmos que não exista conexão entre os eventos. Obviamente, professores de todo o Estado denunciaram as péssimas condições de trabalho das escolas públicas e o descaso do governo com relação a isso e ao descumprimento de promessas assumidas junto à categoria. Com a violência e repressão policial empreendida contra os educadores em Curitiba, obviamente que a indignação tomou uma proporção muito maior.
Na época, o governo usou como argumento o fato de que "black blocks" e integrantes de "movimentos radicais" teriam se infiltrado entre os professores e que teriam provocado o "confronto". Contudo, levantamento do próprio Ministério Público comprovou que isso não passava de inverdade, e que a manifestação (legítima) de educadores e estudantes reivindicando tão-somente condições mais dignas de trabalho.
Querer retirar do professor a liberdade de criticar um governo é o mesmo que censurá-lo, e esse silenciamento só pode ter um objetivo: que os jovens estudantes nas escolas não tenham um posicionamento crítico frente ao que ocorre na sociedade e na política. Assim, não questionarão, não se manifestarão, e tudo fica da maneira como os governantes acham conveniente.
Independente do posicionamento político, a cidadania só pode acontecer num país onde as pessoas tenham liberdade de manifestar seu pensamento, e as ruas têm mostrado nos últimos 3 anos o quanto isso é importante.
Apoiar movimentos do tipo "Escola sem partido" é apoiar a criminalização da prática docente, concordar que nossos estudantes sejam educados para serem dóceis, acomodados e que não sejam capazes de refletir e interpretar criticamente o mundo em que vivem.
Não nos iludamos: não existe neutralidade, e todo pensamento parte de um conjunto de ideias e de uma interpretação de mundo. Desse modo, movimentos do tipo "Escola sem partido" são tão ideológicos quanto quaisquer outros. Que os professores tenham liberdade de pensamento e autonomia no seu trabalho, que desenvolvam seus conteúdos científicos contidos nos livros didáticos e nas ementas dos currículos, e que os políticos que estão encampando essas ideias possam ir atrás de resolver os problemas concretos de suas cidades, estados e do país. Ou saúde, segurança, saneamento, educação, estão uma maravilha? Até parece que não têm mais o que fazer!
THIAGO LEIBANTE é professor de Sociologia do Instituto Federal do Paraná (IFPR) em Londrina
■ Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres e no mínimo 1.500 caracteres. Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: opiniao@folhadelondrina.com.br


