É corrente por aí que o "povo de humanas" só vive para fazer miçanga. Mas já pararam para pensar se é isso mesmo e quem é que ganha quando a reflexão sobre a sociedade não tem valor?
Nós estudamos muito, fazemos análises, lemos autores que analisaram processos semelhantes, que encontraram algumas explicações, algumas respostas. Olhamos de novo para a realidade, reunimos dados, pensamos de novo. Buscamos a compreensão do que está acontecendo.
Não é uma ciência exata - mas hoje, qual ciência pode ser chamada de exata. (Sei que nem física, química e matemática possuem essa pretensão mais).
Estudamos e nos debruçamos sobre os fatos sociais, as estruturas, as superestruturas, as identidades, a economia, a política, a ética, o direito, os comportamentos, a psicologia, os desejos...Queremos compreender como funciona a sociedade e, a partir dessa compreensão, construir algo melhor.

As coisas não acontecem apenas instintivamente. Existem processos que se repetem em determinados momentos históricos, cujas bases sociais se assemelham e, por isso, podemos prever e planejar abordagens, condutas, resistências, mudanças.

A leitura de clássicos, de autores que se debruçaram sobre esses problemas (que não, não são novidades na humanidade), o acesso à reflexão desses gigantes, tornaria possível não passar por isso de novo. Pois o conhecimento está aí, para não repetirmos os erros.

A coleta de dados sobre a realidade - dados sobre a fome, sobre a violência, sobre o acesso à educação ou falta dele, sobre moradia, sobre produção de alimentos, sobre acesso à informação, sobre combate à corrupção, sobre a forma de produção de conhecimento - são ferramentas para se conhecer o que está acontecendo - ligar os pontos do mapa que precisa ser desenhado.

Apesar de disso, todo esse conhecimento é cotidianamente recusado. Muita gente acha que é autodidata em política e economia, que não precisa estudar os dados, do IBGE, do Banco Mundial, da ONU, que não precisa refletir e encontrar o pensamento de pessoas que passaram a vida instigadas por esses mesmos problemas, e estavam a fim de encontrar soluções - muita gente acredita que pode ignorar tudo o que a humanidade já produziu sobre esses problemas, pelo menos nos últimos 3000 (três mil) anos.

Sigamos esse raciocínio: quando queremos construir uma casa nós buscamos um engenheiro; quando temos um resfriado, vamos ao médico; quando nosso computador não funciona, procuramos um TI; normalmente alguém já indicado por um amigo por ser bom, ou alguém com boas referências. Mas quando o assunto é a sociedade que vivemos, sobre os fatos trazidos pela tevê e pelos jornais, construímos nossas próprias conclusões sem sequer levar em conta o que dizem aqueles que estudam esses assuntos. Talvez, por ser linguagem, exista a crença de que ela pode ser apenas literalmente compreendida.

Dessa forma a manipulação fica bem mais fácil. Todavia, não precisamos, a toda hora, começar do zero novamente.

Vamos respeitar esse conhecimento, quem sabe assim a gente consegue construir vias e respostas, quem sabe a gente consegue não repetir os mesmos erros que já vitimaram tanta gente.

Ainda nos importamos. Por isso, somos de humanas.

ERIKA JULIANA DMITRUK é professora do departamento de Direito Público na Universidade Estadual de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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