A escola reinventada

A semana de Ação Mundial pelo direito à educação apoiada pela Unesco e Unicef nos faz refletir sobre a escola que se nega a ser uma experiência inteligente e inovadora para as crianças do Brasil, mas que insiste em dar bônus e prestígio através de testes racionais que atendem apenas ao momento da prova.
Ambiente da diversidade, ainda mais num país miscigenado como o Brasil, a escola deveria dar crédito e condições para que floresçam experiências voltadas ao embate intelectual, à tolerância, ao conhecimento do outro e, sobretudo, à vivência do saber.

A geração do celular e do Iphone não descobriu a escola como terreno fértil para o experimento científico, a criação ou a transmissora de um legado pacificador que poderia ser ampliado com os recursos da tecnologia. Se os espaços físicos são deprimentes e nada estimuladores na maioria das escolas públicas brasileiras, por que o fator humano não pesa a favor da escola? Esta possui um cronograma anual, uma grade, equipe pedagógica, professores e supervisores.

Ainda assim, a educação não avança e os alunos a sentem como um peso que têm data para acabar. Por outro lado, a juventude atual se rebela a todo momento, é dispersa e não contempla a análise do passado. Vive num presente contínuo, como argumenta a psicologia contemporânea.

E é claro: os professores se encontram num beco sem saída, atormentados e pressionados com o cenário atual. Mas talvez por isso mesmo, as soluções devam ser inovadoras e em conexão com o cotidiano da geração desta época, sem esquecer de fazer um "link" com a história e o passado que nos fez chegar até aqui. Mas não pode viver de pedagogias ultrapassadas. A escola do futuro que queira sobreviver como espaço da inteligência e integração humana precisa ser repensada. E se reinventar!

ALDO MORAES é músico e coordenador do Batuque na Caixa em Londrina




A rebelião dos ratos

No reino dos bichos há muito tempo os ratos assumiram o poder. Já faz tanto tempo que ninguém mais se recorda de um tempo que não houvesse sido assim. Diversas histórias existem a respeito do tempo em que não foi assim, mas hoje quase todos dizem que isso não passa de histórias contadas para crianças dormirem em paz. "Sempre foi assim...", é o que dizem. Já se passaram tantos anos... que a ligação entre os ratos e o poder tonou-se muito estreita, e exercer o poder, passou a ser sinônimo de "ratanizar".

Já chegou aos meus ouvidos que em algum momento outros bichos até chegaram ao poder. Os leões disseram que iriam "leonizar", as ovelhas, "ovinizar"... muita conversa parecida. Mas no fundo, nada mais fizeram do que ratanizar. Afinal, tudo se dava através dos esgotos... e nos esgotos ninguém ganha dos ratos. Ninguém conseguiu tirar o poder do esgoto. Tanto que havia se tornado até um refrão: "É no esgoto que se exerce o poder".

Do tempo em que outros bichos chegaram ao poder eu não me recordo. Desde que me conheço por bicho, sempre lá estiveram os ratos. É meio difícil entender a relação entre eles. Segundo o que dizem, se dividem em grupos. Brigam, ofendem uns aos outros, denunciam uns aos outros. A gente até se convence... oh, como falam bonito! A gente fica até envergonhado. Mas ao final do dia vão todos para o mesmo lugar.

Dias atrás houve uma confusão danada. Tudo começou no meio da bicharada toda. Foi um barulho infernal. Cansados do jeito rato de ser, queriam mudar tudo. Vamos tirar o poder do esgoto. Os bichos foram pra rua. E os ratos... esses quase enlouqueceram. A princípio resolveram ignorar. Depois tentaram acalmar os ânimos. Mas nada adiantou.

A parte mais engraçada da história vem agora: a grande parte dos ratos resolveu dizer que não eram ratos! "Abaixo os ratos do poder", "Ratos nunca mais", "Pelo poder fora dos esgotos", "Ratos fora já", etc. E a bicharada acreditou... Vejam só: acreditamos que ratos não eram ratos (de novo!). Alguns bichos começaram a dizer: "Vamos tirar os que estão no poder, depois a gente tira o resto". Foi uma rebelião geral. A coisa parecia que ia sair do controle. No fim, os ratos que diziam não serem ratos assumiram o poder. E os ratos... ratanizaram nos esgotos.
E os bichos... e os bichos? Reinos dos bichos, tempo de inverno.

CEZAR FLORA é licenciado em Filosofia pela UEL e bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Sul-Americana

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