Por acaso você que se predispôs a ler este texto acredita que o PT adentrou e se manteve no poder todo esse tempo graças à distribuição de "esmolas" travestidas de benefícios sociais, como o Bolsa-Família e as cotas? E que uma parcela da população brasileira, revoltada com a corrupção empreendida pelos membros deste mesmo partido, através de panelaços e manifestações pré-agendadas conseguiu, "democraticamente", retirar Dilma do cargo de presidente da República? Sinto-lhe informar caro leitor, mas mentiram a você. Pior, te usaram.

Isso porque o PT ascendeu ao governo e por lá permaneceu nos últimos anos pelo simples fato de ter se mancomunado com um grupo específico de pessoas que sustentaram Lula e Dilma no poder enquanto lhes foi conveniente: os aristocratas. E, nesse vislumbre que o poder acaba proporcionando àqueles que com ele não estão acostumados, quando os cacifes do Partido dos Trabalhadores se deram conta foram retirados do comando político brasileiro pelos mesmos aristocratas que lá os colocaram.

Historicamente, não há novidade nenhuma nessa jogatina política, já que este pequeno grupo que dita as regras políticas no Brasil esteve por trás de todos os rearranjos e maracutaias que envolvem o mundo político da Independência até os dias atuais: confabularam para que D. Pedro 1º, então no auge dos seus vinte e poucos anos, não retornasse a Portugal como desejava seu pai D. João 6º, e maquinaram uma Independência (muito bem tramada pelos ingleses, diga-se de passagem) para atender aos seus interesses; apoiaram o que na História é conhecido como "Golpe da Maioridade", momento em que D. Pedro 2º assumiu o trono do Império brasileiro com 15 anos incompletos; quando o sistema imperial não atendia mais aos seus interesses, firmaram acordos obscuros entre eles e instituíram a República; participaram do rearranjo político depois de anos de sucessão presidencial entre políticos mineiros e paulistas e colaboraram ativamente para o golpe contra a República Velha aplicado em 1930, fato que conduziu Getúlio Vargas ao poder; e por fim, quando o Brasil estava "ameaçado" pelo espectro do comunismo e o macarthismo influenciava as políticas governamentais de inúmeros países sul-americanos, governaram lado a lado com os militares após o golpe civil-militar de 1964.

Portanto, os membros do PT, sabedores deste histórico, nada têm de inocentes. Muito pelo contrário. Envolveram-se de modo tão espúrio com os membros da "Casa Grande" para enfim poder participar do jogo político predominante no Brasil que se acostumaram com usurpadores por perto. Agora, colhem os frutos das alianças nefastas que os conduziram e mantiveram no governo. O problema é que, nesta história, entregaram de bandeja o "galinheiro" na mão dos lobos que agora têm carta branca para fazer o que bem entendem, usando do que de mais vulgar existe em se tratando de retórica: "Estamos colocando em prática medidas impopulares porque o PT deixou o Brasil quebrado".

Em pleno século 21, quando tínhamos totais condições para continuar no caminho rumo a uma consolidação mais estrutural de nossa democracia, estagnamos. Não conseguimos romper com a dicotomia que trava o desenvolvimento das ideias, doutrina e não privilegia a independência intelectual do cidadão. E assim, estamos tendo a oportunidade de acompanhar o chocar do ovo da serpente do totalitarismo, e é nítido perceber o que se apresenta através da mais fina película: um futuro governo de direita, conservador e reacionário alinhado com perspectivas cristãs não libertadoras, mas sim fundamentalistas, preconceituosas e retrógradas em sua essência. Se as coisas caminharem como os aristocratas vêm tramando, teremos anos obscuros pela frente. E tudo com o consenso das massas extremistas, mas não dos cidadãos.

LEANDRO CESAR LEOCÁDIO é professor de História e mestre em História Social pela Universidade Estadual de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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