O Brasil vive um momento de muita turbulência e instabilidade política ocasionada por uma sucessão de erros de conduta do governo ao longo da última década. A crise foi fortemente agravada pelos sucessivos escândalos de corrupção que se desdobram cada vez mais graves e gigantescos, e que acabou afetando a vida de todos brasileiros, não somente no aspecto econômico, mas também no social e até na sua autoestima.

Como reação, o povo tem saído às ruas para manifestar sua discordância e indignação diante desse quadro endêmico e crônico de corrupção que tem sangrado preciosos recursos dos cofres públicos, obtidos com o suor dos trabalhadores. São dezenas de bilhões de reais que deveriam ter sido aplicados na saúde, educação e segurança, por exemplo, de forma que pudesse reverter um perverso cenário no qual milhares de brasileiros estão sofrendo e até morrendo por falta de assistência médica adequada. Ou tornam-se analfabetos funcionais pela má qualidade do ensino ou são mortos pela falta de segurança.

Os mesmos personagens que apoiaram e participaram dos movimentos sociais pelo impeachment do ex-presidente Collor de Melo em 1992, no "esquema PC Farias", que movimentou mais de US$ 1 bilhão dos cofres públicos, afirmando "que o mesmo povo que elege um político pode destituir esse político" (conforme Reinaldo Azevedo, da "Veja"), bradam hoje dizendo que um eventual processo de impeachment contra Dilma "não tem nenhuma sustentação legal a não ser uma demonstração de raiva, de ódio", numa realidade em que somente a operação Lava Jato já se constitui como "a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro que o Brasil já teve, envolvendo empreiteiros, doleiros, empresas públicas e políticos".

No entanto, ainda que os movimentos sociais que fervilham pelo país afora sejam legítimos e mais do que justificados contra a corrupção, os desmandos e a insanidade de governantes, vale a pena lembrar que esse mesmo povo foi quem elegeu, e reelegeu, num processo democrático, muitos desses políticos que hoje estão atolados até o pescoço nesse fétido lamaçal de corrupção. Não faltam exemplos de políticos que tiveram seus mandatos cassados ao longo dos últimos 20 anos, e que, passado algum tempo, foram reeleitos para os poderes legislativo e executivo, pelo voto da maioria dos cidadãos brasileiros que antes apoiaram a sua destituição dos cargos públicos, ou que repudiaram atos pregressos de corrupção.

Quando o povo de Deus foi liberto do cativeiro do Egito e conduzido por Moisés pelo deserto para entrar na terra prometida, foi-lhes dirigida a palavra de Deus dizendo: "O céu e a terra tomo hoje por testemunhas contra ti de que te pus diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência"(Deuteronômio 30,19).

Numa analogia, estamos diante de um quadro em que o povo brasileiro, e povo de Deus, está cativo e refém de corruptos que ocuparam o poder e fizeram dele instrumento de destruição de finanças e de valores morais, pela sede insaciável de poder, não importando o custo e o sofrimento que estão infligindo à população, principalmente aos mais pobres e humildes.

Que a voz e o brado do povo, cativo da corrupção e da mentira, possam ser ouvidos pelos homens e mulheres de boa vontade que ainda restam nesse país, mas que esse mesmo povo tenha discernimento e iluminação para que nas próximas eleições possa olhar pelo retrovisor do passado, aprender com as amargas lições e, conscientes e de cabeça erguida, escolherem a verdade em lugar da mentira, a esperança em lugar da decepção, a vida em lugar da morte, para que possamos viver em paz, nós e nossa descendência.

CARLOS JOSÉ ESTEVAM LIOTI é administrador em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

mockup