Sempre escutei que brasileiro é cordial. Os adjetivos que descrevem nosso povo são simpáticos, acolhedores, alegres, festeiros. É o que a maioria dos estrangeiros fala ao visitar o País, como se observou na Copa do Mundo de 2014. Tal cordialidade, porém, não revela a verdade. Serve, muitas vezes, de fachada, como afirma o sociólogo Antônio Cândido. Sergio Buarque de Holanda, um de nossos grandes historiadores, revela o mito do homem cordial, em "Raízes do Brasil", livro de 1936. Cordial vem de coração. Implica dizer que o brasileiro ama de coração, o que dá intencionalidade e intensidade, mas igualmente odeia de coração. Ou seja, somos cordiais também quando odiamos.

Contudo, admitir que odiamos é difícil, pois reconhecemos o ódio, mas não em nós. É mais cômodo quando o atribuímos a outros. O professor e historiador Leandro Karnal define bem esse pensamento quando diz que algumas pessoas parecem "ilhas de pureza e inocência" cercadas de ódio por todos os lados. Ele fala do pacifismo do brasileiro, que seria constituinte de nossa civilidade. Tal conceito é efêmero, pois cria um cenário fantasioso de que a civilidade reside em nossas famílias e nossa cidade, das quais está fora a barbárie. Falácia!

O Brasil revela-se cada vez mais reacionário. O processo de discussão política iniciado nas eleições de 2014 e agravado neste momento em que se discute o eventual impeachment da presidente Dilma suscita, em especial nas redes sociais, uma onda de segregação e a manifestação explícita de ódio. Ressalvando-se as pessoas ponderadas e suas demonstrações de preocupação com os rumos do país e estimulando boas e saudáveis discussões, assiste-se a um lamentável binarismo entre bem e mal, pobres e ricos, Norte e Nordeste contra Sudeste e Sul. São visões deturpadas e violentas de um e de outro lado. É um equívoco, pois o outro não deve ser entendido como inimigo, mas alguém cuja posição precisa ser respeitada.

Somos uma sociedade de pessoas que se esforçam para ser simpáticas, mas não empáticas. Retórica enfatizada por Karnal. O amor e ódio, que andam lado a lado, são a representação clara da dualidade emocional que sustenta nossa contradição. Escutamos a opinião do outro, mas, às costas dele, criticamos e detestamos o que acabamos de escutar. Uma raiva que surge por não concordar comigo e cresce até virar ódio, mas que está sempre nele e não em mim. Freud explica. É a morte na própria vaidade e no narcisismo descontrolado.

O outro deveria ser diferente e, como tal, ser respeitado. O que acontece é que a intolerância à diferença é traduzida na necessidade doentia de tornar o outro igual, desqualificando suas opiniões e o diminuindo como ser humano. Eu não posso ser eu; tenho de ser o outro, senão sou retalhado, ao passo que é a diferença que cria reflexo em nós e favorece o autoconhecimento.

Depois da reeleição da presidente Dilma Rousseff, as redes sociais foram bombardeadas com insultos, comentários racistas e xenófobos contra os nordestinos. Uma confusão entre preconceito e ressentimento social com liberdade de expressão. Mas, o ódio é tão contundente que leva as pessoas a mostrar o que elas possuem de pior. A necessidade de se encontrar os "bodes expiatórios", termo da bíblia judaica, explica que, no dia da expiação, o bode era um animal levado aos templos para que a ele todas as mazelas e pecados da sociedade fossem atribuídas e depois sacrificado. Reproduzimos, inconsciente e conscientemente, o movimento de encontrar "bodes expiatórios" para depositar nossas angústias.
O ódio cria unidade e agrupa as pessoas, pois é difícil amar, embora nos esforcemos, mas odiar é prazeroso, mesmo que sádico. Somos diferentes, mas se temos a quem odiar, nos tornamos irmãos, como bem evidencia o historiador Leandro Karnal. A derrota do outro é mais saborosa do que a minha vitória, dialética reproduzida com maestria nas relações interpessoais. Fazer o bem e amar é enfraquecer-me diante do outro. Requer sacrifício, gratidão e retribuição. É insuportável a sensação de sentir-se diminuído diante do outro. Já o ódio dá motivos para me vingar, torna-me poderoso e mais forte do que o outro.

BRENO ROSOSTOLATO é professor de Psicologia da Faculdade Santa Marcelina em São Paulo

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