Estive acompanhando, no último domingo, a votação do processo de impeachment pela Câmara dos Deputados. Não que eu tivesse alguma dúvida em relação ao desfecho do processo, pois os acertos já vinham ocorrendo, e como eu havia dito há alguns dias em artigo publicado nesta FOLHA (6/4), a classe política precisa se proteger, uma boa maneira de fazer isso, é cortando uma cabeça de peso, e com isso esfriando alguns processos em curso. No entanto, o que me levou a assistir à votação do processo de impeachment foi a curiosidade em conhecer nossos ilustres congressistas, pois como sabemos, a mídia normalmente dá espaço aos lideres dos partidos de maior bancada na Câmara, e/ou alguns deputados mais atuantes, enquanto a maioria deles permanece no anonimato.

Fiquei perplexo com o que vi, apesar de que políticos de alguma credibilidade já vinham adiantando que este é o pior "Congresso da história da República do Brasil", fica difícil imaginar que o povo brasileiro tenha eleito esse "time" de políticos para representá-lo. Uma parte significativa deles se dirigiu ao microfone da "Casa do Povo" e, assistida por todo o País, afirmava que estava votando pela família, pelos filhos, pelos netos, pela mulher, pela cunhada, pelos primos, pelos corretores de seguros e até por torturador da ditadura militar. Um ilustre deputado, que não me recordo o nome, e peço desculpas, pois deve ser "muito influente", voltou ao microfone da Casa, após já ter externado o seu voto, e com o consentimento do "presidente da Casa", pessoa de "caráter ilibado", e muito "elogiado" por diversos congressistas durante a votação, disse que tinha esquecido de mencionar seu filho na sua lista de homenageados, cá entre nós, "que fato importante e de inestimável relevância para o andamento da sessão". Teve até deputada elogiando o próprio marido, prefeito de Montes Claros (MG), pelo modelo de gestão e, curiosamente, este foi preso no dia seguinte, pelo uso de meios fraudulentos para o próprio benefício e de sua família. Poucos falavam que estavam representando seus eleitores. Uma pequena parte dos deputados se referiu ao fato que realmente motivou o processo de impeachment. Será que estavam votando pensando em outros motivos? Quais? Observou-se nos dias que antecederam a votação uma "romaria" de deputados ao Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB-SP).

É partido que não acaba mais, parece uma sopa de letrinhas, teve até deputado que confundiu a sigla do partido na hora de votar, mas será que isso faz diferença? Será que a maioria desses partidos tem diferentes propostas para o Brasil? Perdoem-me a pergunta, será que a maioria desses partidos tem proposta para o Brasil? Pois como sabemos, o presidente da República tem que governar com o Congresso Nacional. Fico imaginando, com tantas "cabeças pensantes e privilegiadas", certamente o Brasil deverá receber contribuição de grandes ideias para solucionar seus problemas.

Gostaria de estar enganado, mas pareceu-me que o simples afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT) já solucionaria todos os problemas do Brasil, pois uma frase que ouvi diversas vezes, por parte dos ilustres deputados, durante a votação do impeachment foi: "Vamos acabar com a corrupção!", "Vamos aprovar o impeachment!". É quando vem a nossa mente a pergunta que não quer calar: Esses mesmos deputados até bem pouco tempo atrás não constituíam a base do governo? Eles não participaram das decisões durante os últimos anos? Ou será que somente nos últimos meses ficaram sabendo dos reais problemas do Brasil? Se o próximo presidente, seja lá quem for, terá que governar com o atual Congresso Nacional, o que podemos esperar dos próximos anos para o Brasil? O presidente da Câmara disse na hora de votar, "que Deus tenha misericórdia dessa nação", eu diria, "vai precisar de muita"!

EDUARDO DI MAURO é físico e ex-reitor da Universidade Estadual de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

mockup