Quem quer que use os serviços do Uber, esse aplicativo para telefone celular que mobiliza um serviço de transporte semelhante ao prestado pelos taxistas, relata a mesma coisa: é atendido com rapidez por um motorista muito atencioso em um automóvel novo, com água gelada, revistas e jornais do dia. Logo descobre ser possível conectar-se a outro aplicativo, que lhe permite escolher músicas a seu gosto durante o trajeto. A despesa é até 35% inferior à de um táxi tradicional, e a cobrança é on-line, sem manuseio de dinheiro ou cartões de crédito, com recibo enviado por e-mail.

O Uber é um dos frutos da nova globalização, definida não apenas pela troca de bens, serviços e capital entre países, mas também, e cada vez mais, por tudo que envolve fluxos de dados e informações digitais, como comércio eletrônico, computação em nuvem, videogames, redes sociais, dentre outros. Estudo do Instituto McKinsey Global concluiu que os fluxos transfronteiriços de bens, serviços, finanças, pessoas e dados, na última década, aumentaram o PIB global em cerca de 10% em 2014, valor equivalente a cerca de US$ 7,8 trilhões. Os fluxos de dados e informações representaram cerca de US$ 2,8 trilhões deste ganho. E os negócios de base digital só se tornaram possíveis há cerca de 15 anos, enquanto o comércio tradicional existe há séculos.

Uma nova globalização está nascendo com a transformação digital, fenômeno que produz profundas mudanças na forma como a tecnologia é criada, gerenciada e consumida. Novas formas de trabalho e negócios estão surgindo, com impactos para trabalhadores, clientes, fornecedores e parceiros de todas as organizações, públicas ou privadas. Esta rápida mudança tecnológica representa um imenso desafio para países como o Brasil, que precisarão, em curto espaço de tempo, redesenhar setores e negócios, da indústria pesada à agricultura e ao setor de serviços, para se alinharem ao novo cenário competitivo. Novos players, como o Uber, representam grande desafio para os negócios tradicionais, pois oferecem vantagens substanciais aos consumidores e ganham espaço com rapidez. Além disso, o impacto da transformação digital no mercado de trabalho precisará ser cuidadosamente considerado. Estudo recente concluiu que as tecnologias digitais em uso têm potencial para automatizar até 45% das tarefas realizadas pelas pessoas, o que, apenas nos EUA, equivaleria a uma economia anual de US$ 2 trilhões em salários.

É certo que o Brasil precisará ajustar diversos setores da sua economia, seja finanças, varejo, transporte, logística, etc., a esta nova realidade. Por exemplo, segmentos estratégicos da agricultura e da bioeconomia, economia sustentável baseada em recursos biológicos e processos limpos e renováveis são espaços privilegiados para o país na nova globalização digital. Nesses setores essenciais, conquistar a fronteira tecnológica não é só um desafio comercial, mas um imperativo estratégico. Ao incorporar, por exemplo, práticas e processos de precisão, amplo uso de sensores e mecanismos sofisticados de previsão e resposta a variações de clima, a agricultura, que é um importante pilar da economia brasileira, poderá assegurar equilíbrio nas três vertentes da sustentabilidade – econômica, social e ambiental, o que é uma exigência dos consumidores em todo o mundo.

Mas é preciso compreender que a transformação digital não é apenas um destino a alcançar, mas uma jornada feita de mudanças contínuas em processos e modelos de negócios. Com a dinâmica alucinante que marcará o futuro digital, uma coisa é certa: o mundo experimentará uma nova globalização e aqueles que resistirem, presos aos paradigmas da era pré-digital, irão perecer ou viver pressionados por constantes "ventos e trovoadas".

MAURÍCIO ANTÔNIO LOPES é presidente da Embrapa

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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