ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de abril de 2016
Eduardo Di Mauro 
O Brasil vive mais uma vez uma grave crise. Trata-se de uma crise econômica e política. A resolução da crise econômica depende fundamentalmente da resolução da crise política. A economia costuma ter crescimentos expressivos em regimes políticos estáveis. Assim, para solucionarmos essa crise, precisamos atuar no sentido de solucionar com urgência a crise política, que, diga-se de passagem, é muita profunda. Verifica-se que, no momento atual, a classe política brasileira tem baixíssima credibilidade perante a população. Basta dizermos que a Presidente da República, o Presidente da Câmara dos Deputados e o Presidente do Senado são personagens totalmente desgastados e sem nenhum respeito da população.
Além dessa grave crise de credibilidade, a Presidente enfrenta um processo de impeachment, cujos principais motivos são as "pedaladas fiscais", que os governos anteriores também adotaram com frequência, e o recebimento de propina de campanha, cuja esmagadora maioria dos políticos brasileiros recebeu intensamente. No entanto, a classe política já encontrou uma saída para esse imbróglio. Precisa cortar a cabeça de alguém de muito peso político e assim dar uma resposta contundente à população, ou seja, vai tentar mostrar que a classe tem "políticos sérios".
A solução da crise já foi equacionada, ou seja, vão aprovar o impeachment da presidente da República, em seguida, empossar o vice-presidente Michel Temer, que também cometeu os mesmos delitos apontados cometidos pela presidente e a grande maioria dos políticos brasileiros. Com o vice empossado, será convocada uma coalizão de partidos em nome de um governo de salvação e recuperação nacional e, mais uma vez, grande parte dos atuais políticos estarão salvos e garantidos em seus respectivos mandatos.
É interessante comentar que a presidente vem chamando isso de golpe, mas eu diria que não se trata de um golpe, pois tudo ocorrerá dentro das normas democráticas e constitucionais. Um nome mais adequado para o momento que estamos vivendo é "armação", ou seja, aquilo que se planeja ou encena com a finalidade de lograr alguém ou de obter alguma compensação ilícita.
Observa-se nesse momento uma guerra política no Brasil. O objetivo é sempre o mesmo: todos querem ocupar as cadeiras do Palácio do Planalto. Vemos que os políticos defendem ferrenhamente os seus interesses, mas infelizmente esses não são os mesmos interesses da população brasileira. Eu diria que vão fazer mudanças para deixar tudo igual.
Mesmo diante desse quadro, bastante preocupante, é interessante reconhecer que vivemos um momento de muita democracia no Brasil, talvez o momento com maior liberdade em nossa história. Nossas instituições caminham para um fortalecimento e independência desejados. As investigações ocorrem com liberdade e isenção, mas é interessante ressaltar que em regimes democráticos consolidados, as instituições têm os seus direitos e deveres e seus papéis são muito bem definidos e respeitados. Assim, muitos fatos recentes no Brasil, como vazamentos de depoimentos confidenciais ou divulgação de trechos de escutas de telefônicas, fora de um determinado contexto, que devem sim ser divulgados, mas no momento adequado, podem nos deixar apreensivos, uma vez que certas informações fragmentadas podem levar a opinião pública a condenar personagens, antes mesmo de se tornarem réus. Contudo, é interessante verificar que ainda estamos desenvolvendo nosso sistema democrático e, certamente, atingiremos após determinado tempo a maturidade política desejada. Pelo menos nesse item estamos no caminho correto.
EDUARDO DI MAURO é ex-reitor e professor do departamento de Física da Universidade Estadual de Londrina
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