Quando nos depararmos com a atual crise hídrica existente em muitos centros urbanos do Brasil, nos questionamos acerca de como seria possível mudar essa situação, agravada em virtude da redução dos índices pluviométricos nos últimos anos e, principalmente, em decorrência do desperdício no consumo de água pela população.

Há de considerar a nossa falta de conhecimento sobre o uso da água tanto potável, quanto tratada. Ao fecharmos os olhos sobre os nossos hábitos e dedicarmos nossas crenças à tecnologia como solucionadora de todos os problemas, não desenvolvemos uma autocrítica em relação às responsabilidades compartilhadas sobre as consequências dos nossos hábitos do cotidiano, como o uso da água "tratada" para descarte de excrementos. Há um paradoxo quando não sabemos a procedência dessa água, originada pelos mesmos corpos d’água onde são jogados o esgoto tratado. Confiamos que, ao passá-la por todo um processo químico e biológico, a mesma chega em nossas casas dentro de condições saudáveis que evitariam doenças, como a diarreia e a cólera. O esgoto é intratável. O que as companhias de saneamento fazem é reduzir a sua carga poluente, transformando-a em incolor, insípida e inodora. Pesquisas científicas alertam sobre o uso do flúor e a sua relação com doenças como o câncer.

Portanto, os riscos que geramos e acreditamos que são deslocados ou solucionados podem retornar por meio de possíveis soluções tecnológicas. Acreditamos que ao acionarmos a descarga, estamos nos livrando do problema gerado pelos nossos dejetos. A ciência pode nos proporcionar avanços que nem sempre alimentam a cultura do nosso modelo econômico, baseado na expansão e crescimento com vistas ao lucro. Bons exemplos desenvolvidos pelo Saneamento Ecológico e Permacultura permitem a não utilização da água no processo de tratamento dos nossos dejetos. O banheiro seco é uma realidade em muitas comunidades: são utilizadas cinzas e folhas em um processo biológico de tratamento que não geram odores ou vetores. No final, ainda há possibilidade de uso do adubo em hortas comunitárias.

Contudo, é preciso repensar a forma de disseminação de conhecimento como apresentado. A escola, enquanto organização social para a formação de jovens, possui dogmas discutíveis como o conhecimento sobre o uso da água e as suas consequências para a sociedade. É preciso compreender que reduzimos significativamente a capacidade hídrica ao utilizarmos água para o tratamento de esgoto doméstico, e que a utilização da água tratada não elimina os riscos de doenças em decorrência de soluções tecnológicas instituídas como únicas alternativas. Existem meios sustentáveis e que podem ser desenvolvidos com reduzidos custos, confrontando-se com a indústria que lucra sobre riscos gerados pela sociedade, ao ponto de chegarmos a não saber mais o que seria problema ou solução.

O site de uma companhia de saneamento apresenta 14 atitudes de consumo responsável relacionadas ao uso racional da água tratada. Algumas delas incentivam mudanças simples nos hábitos diários, como banho, escovação dental, limpeza de calçadas e lavagem de roupas. A sustentabilidade proposta preza pela maior conservação da água, o que seria um começo importante no diálogo e compreensão sobre a importância desse serviço ambiental (vital) e a gravidade dos problemas caso se torne escasso. Para essa conscientização, a formação cidadã é essencial, apoiada por duas organizações de base: a família e a escola. Entretanto, é preciso estar ciente de que somente essas atitudes não resolverão a crise hídrica. O problema deve ser trabalhado na sua base: em como a sociedade pode aprender e contribuir para a redução do uso de água potável e, ao mesmo tempo, buscar alternativas de tratamento de esgoto que fujam da visão de transformação da água como um bem econômico.

RAFAEL LEITE MACEDO e JESSICA TAKANO são alunos do mestrado em Administração da Universidade Estadual de Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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