Como amplamente divulgado, a inflação em 2015 atingiu a marca dos 10,67%, sendo a maior desde 2002, em razão da incerteza do futuro governo Lula. Diante desse cenário conturbado e de manutenção de alta taxa de juros por um período tão prolongado, é pertinente refletir sobre a real responsabilidade do Banco Central (BC.
Em 1999 o Brasil adotou o sistema de metas inflacionárias, sendo que o principal instrumento utilizado pelo BC para controlar a inflação é a taxa básica de juros, chamada Selic.
O sistema consiste basicamente em usar modelos de previsão para analisar variáveis macroeconômicas como nível de emprego, produção, juros e, claro, a própria inflação. Para isso, eles se servem de equações matemáticas que se fundamentam na teoria econômica.
Esses modelos visam prever, na medida do possível, a interação entre os principais agentes que afetam as variáveis acima. Ou seja, existe uma meta a ser perseguida na qual se estabelece a taxa de juros de equilíbrio para o comportamento das famílias, empresas, governo e resto do mundo. Por exemplo, no caso das famílias, estas desejam maximizar sua satisfação, enquanto que as empresas buscam o maior lucro possível.
A calibração que responde qual o peso que cada agente deve ter dentro do modelo é algo extremamente difícil de ajustar. Daí o grande questionamento das decisões que o Banco Central toma a cada nova reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
Nesse contexto de busca do equilíbrio macroeconômico, o cálculo diferencial se apresenta como importante instrumento de fundamentação. Os modelos trabalham com eventos probabilísticos, dado que as variáveis podem se comportar de tal forma que o equilíbrio geral fique fora do alcance do Banco Central. O caso das pedaladas fiscais retrata evento tipicamente fora das previsões normais e do comportamento esperado do governo.
Assim, o governo tem um papel fundamental junto com o próprio Banco Central no sentido de alcançar o patamar desejado de inflação. Se o governo extrapola os limites razoáveis na condução da política fiscal, se materializa um ambiente de divergência de objetivos.
Os modelos estatísticos podem não ser o instrumento perfeito de combate inflacionário. Sua eficácia é constantemente colocada em dúvida por segmentos da sociedade, até porque existem interesses maiores que certamente interferem na sua condução. Ainda assim seu uso será mantido, sendo mais fácil aprimorar os modelos que abandoná-lo.
Por outro lado, é natural que haja divergências com relação à taxa de juros ideal. Existe um grande número de jogadores que interagem dentro do sistema. O que é bom para uns, pode ser prejudicial para outros. Por isso que o Banco Central deve agir com total transparência sobre suas decisões para que o mercado tenha sintonia fina com suas ações. É necessário que mercado e Banco Central olhem para o mesmo horizonte.
Por isso, a responsabilidade do governo na condução das políticas que afetam o nível de preços deve ser totalmente oposta ao que temos visto nos últimos anos. O modus operandi atual certamente não é o melhor para a estabilidade dos preços.

RENATO RUGENE DE CARVALHO é economista na Prefeitura de Londrina e especialista em Análise Econômica e Economia empresarial

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