Tal qual Augusto Matraga, de "Sagarana" (Guimarães Rosa, 1946), há muitos repetindo o discurso do "ir para o céu, nem que seja a porrete". Assim, de forma incoerente, reduzem toda argumentação, para melhorar a qualidade de vida, à justiça com as próprias mãos, à violência barata. Londrina pediu, orou, nas primeiras semanas do ano, para que seus índices de violência voltassem à normalidade. Mal se dão conta os londrinenses de que na busca por melhor qualidade de vida, o Brasil como um todo sofre de uma doença chamada normose.

Em uma análise matemática, normal se refere à resposta mais comum, ou seja, a mais frequente, mais habitual. O conceito de normose vem da filosofia e alerta para o fato de que nem tudo que é normal, que é socialmente esperado pela maioria da sociedade, é saudável. Muitas das normalidades são patológicas. Ah, mas "todo mundo faz"... Você não é "todo mundo", mas certamente pode se tornar, quando as consequências de uma normose se voltarem para todos. Veja as vítimas do Aedes aegypti.

Assustada com a onda de violência no começo do ano, tudo que Londrina mais quis foi voltar à normalidade. A taxa média londrinense de 30 assassinatos a cada 100 mil habitantes, nos últimos anos, não pode ser vista como algo normal, não como sinônimo de aceitável. Um ranking atual, divulgado pela ong mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública, traz 21 cidades brasileiras entre as 50 mais violentas do mundo. Detalhe, o ranking considera apenas cidades com mais de 300 mil habitantes. Considerasse cidades menores, os índices proporcionais são muito mais assustadores.

Destaque para o fato de Rio de Janeiro e São Paulo (respectivamente 18,6 e 8,7 homicídios por 100 mil habitantes) não aparecerem na lista (apesar de violentas em números absolutos, proporcionalmente a suas populações apresentam taxas menores). Chama a atenção também o fato de as melhores cidades brasileiras, como São Paulo, terem índices piores que Chile, Argentina, Uruguai e Peru.

Mais violência: os índices de coleta e tratamento de esgoto no Brasil. Com uma população de 205 milhões de habitantes, a coleta de esgoto não alcança nem metade dos domicílios, e daqueles atendidos apenas 39% recebem algum tratamento. Por isso, a maior Estação Ecológica de Esgoto do Brasil "não é normal". Em Araruana, no Litoral fluminense, a Estação substituiu energia elétrica e produtos químicos por plantas. Nenhum mau cheiro para os 170 litros de esgotos tratados por segundo, R$ 77 mil economizados por mês, uma conta de energia oito vezes menor.

Nesse contexto, destaque para a Campanha da Fraternidade da Igreja Católica 2016, cujo tema "Casa Comum, Nossa Responsabilidade" tem o saneamento básico como foco. Ecumênica, chegará a mais de 11 mil paróquias além de outros setores e igrejas cristãs. A campanha inicia-se logo após a primeira Encíclica Ambiental da Igreja Católica e também a primeira do papa Francisco, a qual questiona qual o papel da humanidade para evitar o colapso da capacidade do planeta de promover a vida, abordando uma íntima relação entre pobreza e a fragilidade do planeta e a necessidade de se mudarem produção, consumo e estilos de vida. Não poderia ser normal: 35 milhões de brasileiros sem água tratada, 5 milhões sem acesso a banheiros, 37% da água potável desperdiçada, a maioria antes de chegar ao consumidor. E, já que o ano é olímpico, 5 mil piscinas olímpicas de esgoto in natura lançadas diária e diretamente nos corpos d’água.

Para quem pensa em ir para o céu nem que seja a porrete, destruição ambiental, maus-tratos a animais, poluição, consumismo, violência, pena de morte oficial ou aquela voltada exclusivamente para negros e pobres, o papa lembra que tentar abrir uma porta a porrete, quando se pode fazer uso da chave a seu alcance, é algo extremamente estúpido... normal, normal não é.

REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e policial militar em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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