O capitalismo de corte neoliberal vem transformando tudo em mercadoria. A economia, ao assumir caráter de engenharia econômica, se afastou das suas origens de ciência social e tudo reduziu a fonte de lucro, apoderado por um numero cada vez menor de indivíduos.

Privatizam-se bens essenciais à sobrevivência, como água potável, sementes, conhecimentos e terras do tamanho de países são concentradas nas mãos de alguns poucos, onde prevalece a monocultura de exportação em detrimento da produção de alimentos de subsistência.

O absurdo da mercantilização chega à própria vida. No livro "O que o dinheiro não compra", o filósofo Michael Sandle nos revela os níveis de imoralidade a que chegaram os mercados, em que se comercializam órgãos humanos, barrigas de aluguel, usam-se humanos pobres para testar medicamentos, sem falar da mão de obra análoga à escravidão que se tornou notícia rotineira nos jornais. Tudo isso aproveitando-se da miséria e desespero alheios para auferir lucros nunca suficientes.

O consumo transformou-se em patologia do desespero. Passou-se do atendimento às necessidades essenciais para a compulsão por desejos ilimitados, estimulados por aparatos mercadológicos sofisticados que sequestram subjetividades e impõem o consumo como principal razão existencial, criando obsolescência num ritmo cada vez mais alucinado e predatório. Os bens de consumo abandonam seu caráter de utilidade e se transformam em símbolos de status e referencias de posição social, num desejo insano por sentir-se superior.

Adam Smith, pai do liberalismo econômico, na sua famosa obra "Teoria dos sentimentos morais", descreve que o combustível da ambição econômica e da paixão pela riqueza não está fundamentado no prazer do consumo ou mesmo na ideia de segurança material. A principal motivação é conseguir conquistar a aprovação dos outros e quando as necessidades básicas já foram supridas, o verdadeiro motivador do esforço tem como objetivo a admiração e despertar da inveja alheia. Segundo Smith, "para a maior parte das pessoas ricas a principal fruição da riqueza consiste em poder exibi-la, algo que aos olhos nunca se dá de modo tão completo como quando elas possuem sinais de opulência que ninguém mais pode ter a não ser elas mesmas".

Somos empurrados para o consumo para compensar a falta de significado do dia a dia, movidos por alienação transformamo-nos em marionetes enfeitiçadas. As frustrações psicológicas e existenciais são anestesiadas através do consumo compulsivo que tenta suprir o vazio que vai na alma, mas aquilo que nos falta parece cada vez mais distante, a paz de espírito, propósito, ação consciente, relações sinceras e desinteressadas, mais poesia e menos prosa.

O dinheiro e o lucro invadiram domínios anteriormente reservados à gratuidade, ao senso de comunidade, de pertencimento e de compartilhamento desinteressados. "Antigamente o que tinha valor não tinha preço; hoje o que não tem preço não tem valor" (Patrick Viveret). O sentimento comunitário e de solidariedade mútua, comum às pequenas cidades, vem desaparecendo, reduzindo as relações a redes de interesse e fontes de lucro. Substituímos amigos por network, tudo é business.

Na sociedade de consumo até a cidadania é reduzida ao ato de consumo – tudo se resume à compra ou venda de bens e serviços, o que revela um misto de medo e insegurança e tenta ser compensado pela exibição de bens que dão a falsa sensação de supremacia. Se esta irracionalidade demonstra o estado de pobreza civilizatório, torna-se ainda mais preocupante quando ameaça a própria sobrevivência na Terra, pois quanto mais consumo, mais pressão sobre os recursos naturais escassos. A conta não fecha, desejos infinitos num mundo finito inevitavelmente conduzem ao colapso.

LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é economista e doutor em Ciências Sociais

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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