ESPAÇO ABERTO
Valores e liberdade
Sylvio do Amaral Schreiner
Que o dinheiro é algo importante não resta a menor dúvida. Com ele podemos ter mais conforto, acesso a saúde e educação e ele pode nos fornecer segurança. Alguém sem dinheiro, que não possa ter suas necessidades básicas atendidas, certamente não tem como ser feliz, mas colocar toda a possibilidade de felicidade em cima do dinheiro não é algo realista. Devemos aprender a ver o dinheiro de acordo com o que ele realmente é.
Uma pesquisa nos Estados Unidos teve um resultado sobre como as pessoas se relacionam com o dinheiro bastante curioso. Uma família que ganhava 80 mil dólares anuais, que morava num bairro cuja média salarial das famílias era de 50 mil dólares, se sentia muito feliz. Outra família que tinha renda de 100 mil dólares mas que morava num bairro no qual os vizinhos ganhavam em torno de 120 mil não se considerava feliz. Ou seja, não é a quantidade de dinheiro que traz felicidade. Dinheiro pode até criar condições de vida melhor, mas não define a felicidade das pessoas.
Até certo ponto o dinheiro pode trazer felicidade, porém além desse ponto mais dinheiro não significa mais felicidade. Entretanto, o que mais se vê são pessoas que hipervalorizam bens materiais em detrimento de outros valores que são bem mais importantes. Valores como generosidade, afetos, respeito e autoconhecimento não são cotados nas bolsas de valores, mas fazem uma falta danada na vida das pessoas. Sem eles a pobreza impera e não há dinheiro que compense.
Enquanto não mudarmos o que valorizamos ficaremos presos às determinadas coisas que nos impomos para ser felizes. O bem material além da medida traz apenas uma alegria passageira e não uma verdadeira felicidade. Essa só pode acontecer quando mudamos a forma como vivemos. A felicidade é sempre uma possibilidade, mas depende dos caminhos que vamos tomar. Nossa sociedade é esquizofrênica, ou seja, é dividida. Ela até prega valores subjetivos de real importância, mas na teoria, pois na prática corre atrás de valores falsos. A esquizofrenia jamais foi causa de felicidade, muito pelo contrário. A sociedade muda conforme nós mudamos. Quais são os nossos valores?
SYLVIO DO AMARAL SCHREINER é psicoterapeuta em Londrina
A farra pública com nosso dinheiro
Walmor Maccarini
Quando um parlamentar aceita um ganho polpudo, mais todas aquelas verbas de representação, mordomias e outros vergonhosos privilégios, e não tem a hombridade de posicionar-se contra isso - mesmo que em prejuízo próprio - ele é um aproveitador, parente próximo do corrupto. No caso do segmento mais numeroso da esfera política, o dos deputados federais, eles trabalham pouco e se locupletam com um privilegiado salário, ajuda de custos, auxílio moradia, cotão, verba de gabinete para até 25 funcionários cada, para não falar das denúncias de propinagem.
No dia a dia novas revelações de desmandos vão aflorando (aí incluídos também prefeitos e agentes públicos), e tantas são que a população vai perdendo a memória e já não se lembra das de ontem... Há a corrupção genérica da aceitação pacífica de benesses tidas como legais, e há a de mão dupla, em que operam o receptor e o pagador. A concessão de um ministério aqui, um cargo acolá, um favorecimento mais adiante, sem vantagem para os cidadãos, são idênticas formas de corrupção.
Com o Senado, as quatro dezenas de ministérios, as assembleias legislativas e até câmaras de vereadores, a proporcionalidade dos usos e costumes viciosos é equivalente. E mais o inchaço do funcionalismo excedente, o dos apaniguados. Haja impostos (e arrecadações lotéricas envoltas em brumas) para cobrir isso! Dinheiro que sai do meio circulante, e faz falta.
Muitas vezes falei do idêntico montante de gastos para manter os 54 deputados do Paraná. Agora sabe-se que para 2016 o quinhão que lhes cabe é de R$ 657 milhões, ou em torno de R$ 1,8 milhão ao dia. Quantas obras públicas, sobretudo de atendimento social, se fariam com essa fortuna! Fala-se que a Casa tem 1,3 mil funcionários.
As câmaras municipais também consomem muito. A de Londrina tem cerca de R$ 13 milhões em caixa, dinheiro que veio sendo guardado como fundo para restauração do próprio edifício. É do regimento, mas evidencia que dinheiro público não falta... Nenhuma empresa particular de porte médio pode disponibilizar de tão substancial fundo de reserva.
O abuso reside na prodigalidade dos gastos, que são estabelecidos por normas tidas como legais, porque são eles mesmos, os parlamentares, que as criam. Como a história do arqueiro que primeiro atirava a flecha e depois fazia um círculo ao redor do ponto atingido, e assim sempre acertava na mosca... Eles criam leis e cargos que os beneficiam, e dizem: estamos dentro da legalidade.
WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina
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