"A humanidade precisa urgentemente de uma nova sabedoria, que lhe proporcione um conhecimento capaz de melhorar as condições de vida humana e possa assim garantir a supervivência do homem."
Esta frase foi escrita pelo pai da bioética Van Rensselaer Potter no ano de 1973 quando publicava o seu artigo que posteriormente se transformaria na obra-prima da bioética no mundo: "Uma ponte para o futuro". Potter percebeu no hospital onde atuava como médico e pesquisador que aos poucos o mundo se vinha "des-humanizando", e que não só seus pacientes pediam para se valer de uma falsa humanidade eliminando as dores nos seus tratamentos, como também a própria sociedade não queria passar pelo drama do sofrimento ou, melhor, da conscientização de que na Terra sempre seremos contingentes e altamente limitados.
Isto não é produto do século 20, pois já os racionalistas do século 17 o tinham bem claro. A razão tem seus limites e mesmo na grandeza da capacidade que o homem possui de criar e dominar os fenômenos naturais o homem sempre será uma gota d'água no oceano das dificuldades que a vida lhe apresenta.
Em pleno século 21, podemos constatá-lo abertamente. Um mosquito cujo nome parece trazido dos filmes de Indiana Jones deixa a própria OMS sem palavras e seus pesquisadores silenciosos, frente à proliferação de um vírus que segundo eles não tem como ser controlado.
Quando no ano de 1918 chegou a influenza espanhola na cidade de São Paulo, o estamento sanitário pediu para que todos os habitantes da capital ficassem confinados e não saíssem às ruas. Esqueceram de um pequeno detalhe. Ficar confinado numa mansão da Avenida Paulista não era nada grave. Mas confinado nas favelas insalubres da cidade e nas suas periferias só iria propagar rapidamente o vírus. Tanto assim que o prefeito da época Washington Luís ficou estarrecido quando num só dia foram sepultas 350 pessoas na capital paulista, pedindo socorro ao então arcebispo de São Paulo Dom Duarte, pois a cidade não tinha condições para enfrentar uma epidemia de tamanha magnitude.
A zika tem trazido sem dúvida nenhuma preocupação a todos nós. Países como El Salvador e a Colômbia já perderam a conta das pessoas contaminadas e agora muitos dirigem seu olhar para Ásia e África, onde os controles ainda são muito mais precários. O que me assusta como cidadão e homem que acredita na consciência e sensibilidade humana é que no meio de uma epidemia como esta venha novamente a discussão da legalização do aborto.
Algo simplesmente imaturo, agressivo e nada ético. Sustentar teses em favor do aborto num momento como este me leva a pensar no quão incapazes somos para lidar com a dor e o drama do outro. Parece que a única solução diante da zika seja a promoção da interrupção da gravidez, e que todos os seres humanos que já nasceram com microcefalia simplesmente não tiveram nem vez nem voz no mundo. É aberrante construir o sucesso sobre as cinzas que os outros deixam. Tenho lembrado ultimamente da expressão de Xenofonte, discípulo esquecido de Sócrates: "É coisa mais ilustre e louvável, deixa após si benefícios e não troféus".
A sociedade do século 21 está muito mais interessada em deixar troféus, ganâncias, interesses individualizados e propostas consensuais relativistas e sem fundamento. Não seria muito mais digno e sensível que no lugar de discutir a legalidade do aborto se discutisse o sistema de saúde, as condições urbanas e o sistema de esgoto no País inteiro? Não seria mais louvável indicar para as gestantes os cuidados básicos e essenciais para se prevenir contra qualquer tipo de doença?
A sociedade que pensa que eliminando as pessoas irá trazer benefícios não só se equivoca como também se condena. A vida humana é e será sempre um dom sagrado, ela possui uma fonte divina, só Deus tem direito sobre ela.

PADRE JOSÉ RAFAEL SOLANO DURÁN é teólogo e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) – Campus Londrina

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