ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de fevereiro de 2016
André Luiz Marcondes Pelegrinelli 
O livro "Mein Kampf" (em português: "Minha Luta") se tornou a Opus Magnun do líder nazista Adolf Hitler (1889-1945), escrita em dois volumes, o primeiro em 1925, com o futuro Führer preso, e o segundo, um ano após, em liberdade. A obra autobiográfica reúne grande parte de suas ideias, pregando racismo e incentivando o ódio e extermínio das minorias, em especial o antissemitismo. Varias de suas ideias não são oriundas do próprio Hitler, mas o autor congregou várias teorias e argumentos correntes da Europa de então.
Os direitos sobre o livro, que pertenciam a Adolf Hitler, foram transferidos para o Estado da Baviera e sua publicação proibida após o término da Segunda Guerra Mundial (1945), entretanto, esses direitos caíram no dia 31 de dezembro de 2015, data em que a obra foi transformada em domínio público, iniciando uma corrida editorial e moral pela publicação ou não da obra.
Em 3 de fevereiro o juiz Alberto Salomão Junior, da 33ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, determinou a proibição da exposição, divulgação ou comercialização da obra no Estado; antes disso, algumas livrarias nacionais, como a Curitiba, já haviam se oposto à publicação, não permitindo a venda em sua rede.
A questão é complexa e bastante delicada: deveria ser lícito permitir a venda e distribuição de uma obra que causou tanto dano à humanidade em nome da "liberdade de expressão"?
A primeira reedição publicada na Alemanha foi editada pelo Instituto de História Contemporânea de Munique, que lançou uma obra bastante densa, com muitas notas acadêmicas e comentários históricos que contextualizam a obra, com o objetivo de desmistificar as ideias do líder nazista e diminuir os riscos de suas ideias.
Os que concordam com a republicação em massa da obra alegam que seu acesso on-line já é consolidado de fato, encontrar versões em PDF da obra, em grande parte de péssimas traduções, é bastante fácil -, e que, em nome da "liberdade de expressão", o indivíduo "leitor" deve estar acima do produto "livro".
Os que defendem arbitrariamente sua proibição ressaltam, com razão, que interpretação de texto e pensamento crítico estão em falta no Brasil, principalmente na onda conservadora dos últimos anos. Qual pode ser o resultado de um livro desses, talvez sem notas críticas ou reflexões históricas, nas mãos de um cibernauta que exalta um guru da extrema direita, como o "Bolsomito" (com ênfase nas aspas)?
Mais que isso: o Brasil está preparado para "Mein Kampf"? Infelizmente, mais uma vez, um debate que poderia ser bastante frutuoso está restrito às cortes judiciais, aos comentários de portal de notícia e aos memes esses sim, maiores símbolos políticos contemporâneos. Contra a idiotização, pensamento crítico. Contra soluções rasas liberação ou proibição indiscriminadamente -, um debate é necessário.
Triste perceber que enquanto a edição do Instituto de História Contemporânea de Munique mobilizou uma equipe de pesquisadores por três anos para a produção de uma edição "desmistificada" da obra, no Brasil, parece não haver movimento semelhante. Perdemos a oportunidade de apresentar uma obra não-modelo. Feliz comentário de Luis Fernando Verissimo, de que as novas edições deveriam acompanhar um DVD com as cenas dos cadáveres e dos moribundos da Segunda Guerra. "Mein Kampf" só se justifica enquanto não-modelo, entretanto, como esperar uma leitura crítica de uma geração que pensa de forma binária? Reitero: o Brasil está preparado para "Mein Kampf", não (apenas) a obra, mas o debate antes ou após a publicação?
ANDRÉ LUIZ MARCONDES PELEGRINELLI é graduando em História pela Universidade Estadual de Londrina
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