Janeiro nos deixa uma marca histórica. As chuvas – intensificadas pelo efeito El Niño – marcaram Londrina e região com rastros de destruição. A natureza apresenta sua grandeza, seja em paisagens e fenômenos exuberantes, seja pela sua força, mas o homem se recolhe em sua pequenez, em seu tempo. A natureza nos mostra que dela somos parte e não proprietários. Mas o homem insiste em ser pequeno, no sentido mais pejorativo possível, seja ao concluir que tudo não passa de vingança da natureza, seja pelo planejamento ruim ou inexistente, que se apresenta na sazonalidade de problemas. A cada verão ocorrem inúmeros desastres ambientais, sobretudo pelas chuvas. Anualmente a "reaparição" dos casos, dos focos, das mortes causadas pelo Aedes. É a caracterização perfeita de uma nação pobre. Não diretamente do ponto de vista econômico, mas se trata de pobreza educacional, cultural...
Na era digital, no tempo das redes sociais, a internet recebe a crítica que a TV já recebeu (e ainda recebe): a de ser vazia, ou cheia de conteúdos inapropriados. Esquece-se de que, tal qual a TV, não é a ferramenta, mas o uso que dela se faz que deve ser o mais importante. Nem a mais "smart" das TVs, nem o google por si só possuem vida própria. Deveria ser revoltante conviver com a morte anunciada por doenças como dengue, leishmaniose, doença de Chagas, tuberculose, malária, esquistossomose, diarreias... enchentes. Ah, sim, enchentes não são doenças. Nem podem ser as responsáveis pelos desastres ocorridos pelo mau planejamento, agravados pela impermeabilização excessiva do solo, pelo excesso de asfalto, de cimento, de lixo com destino final inadequado. A forma negligenciada com a qual o ambiente é tratado mostra que a maior parte da população parou no século passado.
Apresentar a natureza como vingativa, então, é algo medieval. Diriam os mais vividos: "Ah, mas no meu tempo não era assim!". E o saudosismo faz o passado ser melhor em tudo. Diriam os mais jovens: "Ah, mas na Noruega... no Iraque... no Canadá... na Indonésia... em Cuba... não é assim". Seguem o raciocínio com dezenas de outros países dos quais as aulas de geografia não deixaram nem sequer as capitais. Mas insistem em ver apenas "lá fora" um mundo melhor. Precisam olhar para dentro, olhar para perto. É evidente a relação direta entre efeitos climáticos e o nosso cotidiano. Os preços dos hortifrútis que disparam, a energia que fica mais cara por conta da bandeira vermelha (para compensar o custo elevado de ter de usar as poluidoras termoelétricas). A saúde comprometida pela poluição nas suas diversas formas. As ilhas de calor e suas consequências.
Poderia algo ser mais desastroso que a confirmação de que o fenômeno nas águas do Oceano Pacífico – El Niño – estar sendo agravado pelo aquecimento global? A anunciada pequenez humana é ainda pior. Especialmente quando abandona a meritocracia e acolhe políticos como aqueles cidadãos que pararam no século passado (ou na Idade Média). Política ambiental deve tratar de sustentabilidade, do uso do petróleo, do gás e do carvão. Não pode negligenciar a mobilidade urbana. Não pode estar distante das políticas agrícolas. Quando uma cidade que produz 450 toneladas de lixo por dia, é exemplo nacional por reciclar 5%, número reduzido pela falta de uma efetiva participação da população, é sinal de que entre links postados nas redes sociais e a realidade há um abismo. A atual gestão ambiental londrinense vai ao encontro da boa qualidade de vida, mas sem participação popular pouco adianta estabelecer multas para o descarte inadequado de lixo, desde de uma de suas 500 mil bitucas diárias de cigarro ao descarte de pneus, embalagens de agrotóxicos ou resíduos da construção civil.
Previsão do tempo: é tempo de sair do smartphone,ou da parte vazia dele, de buscar conhecimento para que amanhã não olhemos para traz com a certeza de que em relação a problemas ambientais, "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais...".

REGINALDO JOSÉ DA SILVA é biólogo pós-graduado em Análise Ambiental e Policial Militar em Londrina

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